Dona do Tempo

Olha, Dona, eu vim aqui hoje, exatamente hoje porque é dia vinte e três de setembro e se eu bem te conheço, tu sabe que as estações mudaram de novo e a primavera chegou!

A primavera chegou aqui fora, pro resto da cidade, porque pra mim e pra você, ela sempre esteve aí dentro de ti.  Tu é flor, moça.  Esses teus olhos cor de inocência possuem um efeito quase que capitolino em quem te encara diretamente. Nessas duas bolas de vidro, quase que transparentes, essa moça transborda. Ela não cabe em si mesma, ser flor é uma tarefa árdua nas outras estações.

Eu me lembro bem que a conheci de verdade em um inverno tempestuoso. Ah, mas se eu soubesse que para te ter tão próxima era necessário meu velho mundo desabar, eu já teria chutado o pau da barraca faz tempo, já te contei disso, não é? É a pura verdade, dona. Tive momentos sempre regados de muitas músicas, vinhos e conversas sem fim que guardo cravados no peito. Você se desabrochando, pétala por pétala, pra mim. 

Dona moça, saiba disso... Que teu sorriso te pertence na mesma proporção que os doces de algodão enfeitam o céu. Olhe, se eu puder te pedir uma coisa, seria essa: que nunca guarde esse sorriso, que nada te roube ele, que sejas sempre a felicidade em forma de flor. Que floresça por onde for. Que flor seja, onde florescer seja possível. Não se demore em terras secas, sei que por mais que plante e regue e tente, elas não são teu lugar. As terras mais férteis te esperam, voe pra lá.

Eu tenho uma confissão a fazer, moça... Te enxergo assim, tão pequena e tão florzinha, que meu peito se aperta em vê-la andando por esse mundo mau, à mercê do que  possam te fazer. Mas eu sei que tu é flor, mas tu é uma rocha, também. Admiro tanto essa tua coragem de viver e acontecer. Estar contigo me traz essas vontades também – e eu penso que consigo viver assim, sendo uma fortaleza, leve, flor.

Dona do Tempo, já passaram quatro estações que tomamos nosso primeiro vinho, trocamos as primeiras confissões e tu me enxugou as lágrimas. E parece que minha vida toda eu te esperava, ali, no meio de um jardim descuidado com rosas cheias de espinhos... Tu chegou. Uma flor

Para meu bichinho: Dayanna.

Jamais me acostumarei..

Não consigo me acostumar com a não-rotina acompanhada dos finais de semana seguida dessas segundas-feiras atarefadas e solitárias. Ainda não me acostumei a num dia estar caminhando a beira-mar, carregando na capanga uma câmera, uma canga e um filtro solar e no peito você e essa mistura do teu cheiro e teu sorriso que embaralham até os meus sentidos, quem dirá esses cambitos que chamam de pernas. Mal me aguento em pé.

Não, eu nunca me acostumarei a te ter a um travesseiro de distância, debaixo do mesmo lençol, logo ali... a um rolamento de distância, onde basta um sussurro de "me abraça" que o adormecer em forma de concha acontece - E na noite seguinte ter a insônia como colega de quarto e metade da cama desocupada, mas ainda assim cheia de um vazio repleto de ninguém pra te abraçar.

Jamais. Jamais nessa vida me acostumarei a te ter em qualquer lugar que não seja teu amor no meu coração, teu sorriso no meu pensamento, teus lábios na minha boca e eu segurando tua mão. Você dentro de mim. Jamais me acostumarei, seu moço, a você longe de mim. Eu disse jamais, hein?

Daqueles que não precisam de óculos

O que eu vi em você? 

Essa é fácil.. Eu te vi pela primeira vez naquela noite na praça, antes nosso primeiro dos muitos sorvetes que viriam e no meio do caminho pro filme que marcaria o começo da nossa história de amor. Te vi, sim, pela primeira vez sentado, de costas, na meia-luz de um poste... Porque olhar pra você eu já tinha olhado algumas vezes (ainda que meio sem perceber), mas naquele momento eu te vi e hesitei. Fiquei parada bem uns dez segundos antes da coragem me chutar na sua direção. 

Eu vi que tu era um moço muito do bonito e com um carinho enorme guardado no peito, lutando pra sair dali e repousar nos cabelos de alguém. Eu vi, naquele primeiro cheiro que tu me deu, que se existe céu na terra, é onde você está. Eu vi em todas as borboletas afoitas no meu estômago que o universo sempre prepara as melhores surpresas quando a gente menos espera.

E eu fui vendo, nos encontros, nas mensagens, nas músicas compartilhadas, nas confissões arrependidas, nas declarações inesperadas.... E vi todo seu jeito de me olhar, seu cuidar de mim, eu vi teu gostar crescendo de mãos dadas com o meu, seus carinhos me ninando, suas palavras tomando uma proporção gigantesca no meu dicionário. E vi você. Ali. Pra mim.

Você e eu e um amor desses leves e bonitos crescendo. E eu te vejo todos os dias. Te vejo diferente, te vejo melhor, te vejo amor.

Um dia.

Um dia você chegou. E bagunçou tudo aqui dentro. Derrubou os muros da incerteza e construiu alicerces de confiança.  Um dia você colocou cada coisa em seu lugar. E meu lugar ficou definido aí dentro de você. Um dia você viajou e eu não entendi a falta absurda que me fez. Um dia você voltou e, junto contigo, uma euforia incontrolável tomou conta de mim. Um dia eu me rendi. É, paixão, você me pegou. Nem tentei escapar.  Um dia você me arrebatou o pensamento e o coração. Um dia você resignificou meus conceitos de amor e paixão. E eu, assustada, percebi que não estava mais apaixonada por você. Estava amando você.

Um dia eu finalmente entendi que amor é essa coisa boa que eu sinto agora, não aquela confusão que sempre pairava no ar. E gostei. Um dia o mar trouxe, no mais belo pôr do sol, minha noite de lua cheia. Meu solstício de verão. Um dia o universo, cheio de conspirações positivas pro meu lado, cruzou nossos caminhos de solitude. E ó no que deu. Um caminho só, pela frente, com duas sombras passeando nele. Um dia tu virou meu nhonhô. Um dia eu virei sua, única e somente sua. Um dia essa reciprocidade toda fez sentido e eu me entreguei de vez. Vai, pode me fazer feliz.

Um dia você me deixou em paz. Sem soltar minha mão. Um dia eu pensei que você era fruto da minha imaginação fértil, mas era verdade. E de verdade, eu ainda não me acostumei a essa felicidade toda. Mas um dia.. um dia eu hei de nunca acostumar com essa felicidade toda, hei de querer sempre mais e mais e mais e mais você. Um dia eu dormi e acordei do teu lado dias seguidos. E decidi que um dia eu quero isso por dias infinitos, até perder de vista...

Um dia eu vi uma estrela cadente numa noite estrelada na praia. E tentei pensar na melhor coisa que queria pro ano novo que estava chegando. E pensei, e pensei.. E então, desejei: que a melhor coisa que eu tenho hoje, não se acabe nunca, estrela minha.

10/11/2014