Gosto de café.

Um café, um dia chuvoso e um bem-querer. Mais café, arco-íris e um gostar-de-você. Um eu e um você com gosto de café e cheirinho de canela. Abraço apertado pra ela. Um cheiro no pé do cangote dele. Te mordo e te envolvo num lençol de acarinhar. Devoro vo-cê. E te quero de novo e outra vez e dessa vez não te solto, viu?

Eu quero me espalhar pelo lado esquerdo da sua cama e do seu peito. Ocupar seu coração. Sincronizar nossas respirações e nossos planos. Me aninhar no teu colo e me proteger com seu abraço. É no espaço apertado dos teus braços o meu lugar preferido do mundo, vês? Qualquer lugar onde tenha você junto de mim. E seu olhar estonteante. E teu cheiro tão familiar. Acho que já te encontrei antes.

"Se encontraram no momento certo", diz o universo em resposta serena. Malandro. Sabe das coisas tudo e fica lá guardando segredo. Deixa eu te contar um segredo? Tô com uma urgência de você, do seu gosto, de te ter pra mim. Dá você pra mim, seu moço? Diz que sim, diz? Vem provar do meu café...


Inverteu. (com Igor Marques)


Subvertemos sim. Colocamos tudo em estado de desordem. Bagunça e caos reinavam em cada toque, cada palavra mal dita (malditas palavras!) e cada pensamento mais profundo. Desse tempo eu pouco me lembro. Nem o porquê, nem um pra quê. Uns pensamentos tresloucados me passavam pela cabeça. Me parece que esse encontro aconteceu em outra vida, de tão distante que se mostra. De tão embaixo de entulhos que se esconde. Outros corpos, outro eu, outro você. Passo as mãos no cabelo, despenteio o fio de pensamento. Hoje somos como dois estranhos, completos desconhecidos que apenas se percebem pelo caminho e seguem o dia. Se essas almas ao menos tivessem se encontrado um dia.

A vida é uma ciranda dissonante. o que nos resta é escolher bem a quem dar às mãos, e mais ainda: saber a hora de soltá-las. não sou mais aquele pássaro, batendo asas (des)orientado. Afiei minhas garras, aprumei meu ninho, minhas penas, meu canto. Com um punhado de trovão nos olhos, vivo de encantamento. Minhas guerras são outras. Distraído em meus fascínios, despercebo a sua presença pequena e inútil. Seu rastejo langoroso. seu veneno matinal. Presta atenção. Quem nunca voou na asa de um pássaro não pode sentir cor de liberdade. Presta atenção. Presta atenção. Presta atenção. “Lugar de cobra é no chão”.

Invertemos. Eu, passarinho que sou, agora passo sozinho. E não te preciso mais. E sou livre, leve e vôo. Vou. Vou embora. Vou indo, voando, voltando pra casa. Desapega de todo nó cego, de todo nó na garganta, de todo nós. Isso só fez pesar em você, engasgar, te perder de você. Agora, adeus. Levo na mala um punhado de sonhos bons e minha dor de estimação pra cuidar, pra sarar. E prometo fazê-lo. Agora, veja, bem: não precisa se preocupar comigo. Periga eu beber demais, voltar a fumar e procurar umas pessoas vazias por aí. Mas eu to cuidando de mim por você, to achando quem cuide.