A volta.

Tinha acabado de entrar no chuveiro. O dia tinha sido o mais estressante da semana, pretendia ficar ali debaixo da ducha quente por bastante tempo. O celular começou a tocar incessantemente. Deixa tocar. Ninguém é tão importante agora. Uma, duas, três, sete chamadas perdidas.A campainha tocou 3 vezes seguidas. Várias batidas na porta. Céus! Quem faz tanta questão de me atormentar o juízo logo hoje? Amarrei a toalha na cintura, os cabelos ainda encharcados, saíram molhando a casa inteira. Abri a porta. Inacreditável. Era a Dora. Ela voltou.

— E aí, Dom Juan? 

Foi entrando em casa e jogando a mochila no sofá.

— João, Dora, é João.

Bati a porta a contragosto, a última pessoa que eu podia ver hoje era ela.

— Larga de ser chato... Cadê a garrafa de vinho que a gente deixou pela metade?
— Faz três meses que você me deixou. Já bebi ela e mais doze.

Ela mascava um chiclete chato, a boca abrindo de um jeito mal educado e sexy.

— Ah, João. Você já teve mais senso de humor. O que aconteceu, hein?

A resposta para essa pergunta era muito dura. Preferi desconversar.

— Não aconteceu nada, não...

Fui na cozinha, ainda tinha metade da décima terceira garrafa de vinho na geladeira. Da sala vinha o som do violão, ela deve ter puxado do canto da parede. "Desculpe o auê" de Rita Lee. Maldição.

—  Senti saudades. - Disse depois do segundo gole.

— Eu também. - Queria mais que tudo estar mentindo, mas não.

(...)

Só dormimos quando o dia clareou. Acordei e no lado dela da cama tinha um bilhete em cima do travesseiro dizendo:

"Eu não queria magoar você".  


Um comentário:

Nequéren Reis disse...

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