A volta.

Tinha acabado de entrar no chuveiro. O dia tinha sido o mais estressante da semana, pretendia ficar ali debaixo da ducha quente por bastante tempo. O celular começou a tocar incessantemente. Deixa tocar. Ninguém é tão importante agora. Uma, duas, três, sete chamadas perdidas.A campainha tocou 3 vezes seguidas. Várias batidas na porta. Céus! Quem faz tanta questão de me atormentar o juízo logo hoje? Amarrei a toalha na cintura, os cabelos ainda encharcados, saíram molhando a casa inteira. Abri a porta. Inacreditável. Era a Dora. Ela voltou.

— E aí, Dom Juan? 

Foi entrando em casa e jogando a mochila no sofá.

— João, Dora, é João.

Bati a porta a contragosto, a última pessoa que eu podia ver hoje era ela.

— Larga de ser chato... Cadê a garrafa de vinho que a gente deixou pela metade?
— Faz três meses que você me deixou. Já bebi ela e mais doze.

Ela mascava um chiclete chato, a boca abrindo de um jeito mal educado e sexy.

— Ah, João. Você já teve mais senso de humor. O que aconteceu, hein?

A resposta para essa pergunta era muito dura. Preferi desconversar.

— Não aconteceu nada, não...

Fui na cozinha, ainda tinha metade da décima terceira garrafa de vinho na geladeira. Da sala vinha o som do violão, ela deve ter puxado do canto da parede. "Desculpe o auê" de Rita Lee. Maldição.

—  Senti saudades. - Disse depois do segundo gole.

— Eu também. - Queria mais que tudo estar mentindo, mas não.

(...)

Só dormimos quando o dia clareou. Acordei e no lado dela da cama tinha um bilhete em cima do travesseiro dizendo:

"Eu não queria magoar você".  


Um agosto incomoda muita gente.

Agosto chegou e ainda vai demorar 30 dias pra passar. Rápidos ou lentos, ensolarados ou nublados, bons ou ruins. São 30 manhãs, tardes e noites de agosto. De uns anos pra cá, meu carma com agostos tem se tornado mais frequente do que o desejado. E aí Dona Brenda já começava a reclamar, a espernear, a chorar as pitangas nos ouvidos de quem desse a menor brecha de ousadia e assim se passava o mês, ainda ficando nela com todas as suas agostices.

Como uma epifania que revelou o que ainda estava escondido, concluiu: A contragosto, em agosto eu me torno eu. E nada mais. Não tenho dinheiro, não tenho ninguém, nem sou de ninguém. E que pensamento errado esse de posse sobre as pessoas, viu. Holly Golightly já dizia que "people don't belong to people". Tenho sempre os amigos - aqueles verdadeiros que não saem do seu lado nem sem ter um casaco debaixo de neve. São esses os amores que duram e perduram.

Ouço desde criança que a gente se torna mais forte na fraqueza. Acho que isso aí faz um sentido danado. Quando a barra pesa que a gente sabe até onde aguenta, até onde a força vai... e sabe também a hora de gritar pedindo uma ajuda, que ninguém é de ferro nessa vida. E hoje, aqui, que eu descobri quantos agostos cabem em mim: quantos meses de cachorro louco houverem nessa vida.