Não sai da cabeça

Não conseguia dormir, a insônia tá braba por esses dias. A cabeça deitada em um travesseiro, o outro abraçado contra o corpo suado. Fazia o maior calor de noite, caso de ar-condicionado no quarto, mas o ventilador é que tinha que dar conta do recado. Felipe levantou, lavou o rosto e tomou o tarja preta. De volta pra cama.

Deitou de bruços, puxou o edredom e se encobriu. Aquela coisa de tá-calor-mas-não-durmo-sem-me-encobrir e tal. O cheiro dela ainda estava impregnado no canto direito da cama, dava pra sentir em cada inspiração. Maldita empresa que faz uma fragrância tão gostosa — duradoura. Damn you, Chanel Nº 5!

Dona de todos os seus sorrisos, preocupações e noites mal dormidas, era ela... Dora. De uns dias pra cá, deitar sem uma enxurrada de pensamentos contendo ela como assunto principal era tarefa impossível, assim como dormir. Lembrava agora involuntariamente dela, do seu amor tão doce, seu rosto tão lindo, seu corpo perfeitamente proporcional e seu cheiro — não mais o do perfume, aquele que era só dela e fragrância nenhuma nunca chegaria perto.

Agora sorria. A Dora era a maior graça no banho, aquela bobinha. Não parava quieta no lugar e ainda reclamava que toda vez o cabelo saía encharcado, ju-ra-va que não deixava mais eu dar banho. Bobagem um cabelo molhado, pensava. Ainda pensava demais nela, era verdade...

Uma dor forte começou e foi se intensificando. Finalmente sentia o nó na garganta e o buraco no peito de que tanto ouvia falar. Parecia ter um liquidificador com qualidades de buraco negro no meio do peito — nem no lado esquerdo, no meinho mesmo. Triturava e absorvia tudo, as borboletas no estômagos foram as primeiras, depois o nó na garganta, agora os pensamentos... um a um pra dentro do liquidificador-negro. Adormeceu, o cansaço falava mais alto que a insônia às vezes.