Post-it.


Dance Me To The End Of Love by Madeleine Peyroux on Grooveshark

Meu post-it rosa neon continuava colado ali na sua parede branca, no lugarzinho que eu deixei. Orgulho. Toda vez que passava por lá eu olhava de canto de olho dando uma conferida. Ali. Com um recadinho simples. Ele sempre esteve ali, quando nem mesmo eu estava. Aquele mesmo tempo que demorou e demorou, mas me levou até ti, te trouxe de volta pra mim. Dizem que o mundo dá voltas, mas quer coisa que dá mais volta que o relógio? O tempo passa, graças a Deus.

Nosso blues voltou. Dance me to the end of love. Aquela melodia gostosa que, segundo você, é-muito-eu. Pra mim ela é todinha você. Aquela associação música-pessoa, álbum-pessoa, cantor-pessoa, ritmo-pessoa. Desse jeitinho. Foi mais ou menos assim: Você me tirou pra dançar e me levou pro meio do salão. Socorro, baby, tá todo mundo olhando e essa música tá cheia de contratempo. Se tu me ensina, eu vou. Se tu me conduz, eu continuo. Não ligo que pagar de boba, desengonçada, coisa qualquer... os outros pensem o que quiser. Os outros são os outros.

Me importa você. Como você se sente, como eu te faço sentir, essas coisas que envolvem você, sua vida e seus sentimentos. Te quero bem e não quero te cansar. Parafraseei. Na minha To Do List eu já acrescentei: ( ) be a better girl.



402.

Ia bagunçando vidas e camas por onde passava. A Dora era um furacão de mulher. Revirava meio mundo de corações quando chegava e a outra metade quando saía. Se ela percebia? Captava no máximo uma olhada mais demorada aqui, um cochicho rápido dali. Sorria involuntariamente, era engraçado esse efeito que tinha nas pessoas. Não só ela, achava de um todo engraçado o efeito que as pessoas tinham umas nas outras.

Ela, fã incondicional dos Hermanos, achando que vive em "O Velho e o Moço", vai alternando entre gostar do gasto e do estrago. Coisa cruel de se dizer, apesar de, para ela, ser mais pro lado do tragicamente engraçado do que o cruel em si. Murphy, inferno astral, órbita dos planetas ou só muita má sorte, mesmo. Ou tudo isso junto numa onda de azar que a persegue desde sempre. 

De uns dias pra cá a Dora anda meio desanimada pra rir da própria desgraça. É muita risada que tem que dar, dói até a mandíbula. Sobra tempo pra mais nada. Rir por graça já nem lhe convinha mais. Alguma coisa - e quando digo alguma coisa eu, você e todos nós sabemos que eu quero dizer alguém - doía de latejar nela. A menina ficava com o nariz feito pimentão vermelho toda vez que brotava na memória aquele café tão mais gostoso que o dela.

A Dora precisa achar um cara, dono de outro apartamento sem elevador, que represente tudo que esse de antes representava a ela. Um daqueles legais e quase extintos, sabem? Que converse pelos cotovelos conversas que dá gosto de ouvir. E  que goste de mordidas. Tem que gostar de mordida.

Escape.

Já aviso de antemão que o texto terá alguns xingamentos. Daqueles que eu não externo na presença de gente nenhuma, mas que penso e praguejo em voz alta quando estou sozinha no quarto. Quem me lê desde os primórdios da minha escrita-como-válvula-de-escape sabe que quando o caso necessita das palavras mais fortes - os ditos palavrões - é porque a coisa tá feia.

I.
Putaquepariu, como você é burra, menina. Tá chegando na casa dos vinte e parecendo que voltou a ter dez anos de idade, que é isso, hein? A culpa é sua, todinha sua e de mais ninguém, nem adianta querer dividir com um ou outro, não vai adiantar. 

II.
Que desgraça de mania de se martirizar é essa? Errou? Errou e feio, por sinal. Mas já foi, o tempo não volta e o mundo não para pra você ficar lamentando o que passou e não foi do jeito que deveria ter sido. Ergue a cabeça e segue em frente...

III.
Por que raios existe essa merda desse orgulho ferido? E o ego, então? Cacete, esse monte de sentimentos mesquinhos e egoístas que a gente faz questão de ostentar num letreiro brilhante na cabeça só sabem ferrar com a gente. "Meu orgulho está ferido, não fale comigo" ou "Meu ego é maior que eu, mantenha distância" fica piscando na testa da pessoa.

IV.
Eu, capricorniana com ascendente em câncer, orgulhosa e rancorosa no mundo, acho mais fácil dizer: "Eu não tô bem e tá doendo pra caralho, mas eu vou melhorar". Só disfarço o que sinto quando me é conveniente ou necessário, do contrário eu sou é bem transparente - meus amigos de longa data que bem sabem.

Sinceridade ao lidar com as pessoas, ser mais brando ao falar o que pensa, pensar - sobretudo - que a vida é muito mais do que isso, esse aqui-e-agora. Na próxima década eu provavelmente não vou saber contar o porquê fiz isso ou aquilo, ou como esse e outro me machucaram, nem nada do que hoje é tão absurdamente sentido e vivido. Acredito que vou estar muito ocupada vivendo o que não saberei contar na década depois dessa próxima, também.