De porco espinho e gente espinha

Uma vez me sussurraram a história do porco-espinho e eu vou sussurrar de volta pra vocês. Acontece todo inverno, quando faz aquele frio de lascar, os porcos espinhos precisam achar uma forma de se aquecer. Os porquinhos vão chegando um perto do outro, outro perto de um, eles se aproximam e se amontoam devagarinho.

É difícil, o espinho desse espeta o de lá, o de lá espeta aquele dali e é um espeta-espeta-de-espinhos que não acaba mais. E não acaba mesmo. Os bichinhos vão se ajeitando até acharem um meio de ficarem perto o suficiente para não morrerem de frio e longe o bastante para não se machucarem. O porco-espinho que se afasta dos outros morre de frio.

Gente é bastante porco-espinho, eu penso. Eu preciso de você tanto.. e te espeto. E você não se afasta. E vice-versa. Não atravessar a linha tênue que existe entre se aconchegar no calor do outro e fazer um movimento brusco que o fira é, para mim, o desafio de viver. E a gente, eu, você, ele, todos nós, precisamos urgentemente aprender a viver. 

Um cacto rosa.

 Vêem aquela rosa ali no meio do jardim? A de pétalas escuras, viram? Ela é uma lindeza que só, não é? 

 É sim, muito bonita a rosa, mas olha como ela tá amarrada naquela estrutura de madeira. O que aconteceu com ela?

 Ela tá desse jeito que é pra não despencar de vez. Aquilo ali foi o jardineiro que não soube cuidar direito, estava andando distraído quando pisou na rosa. A pobrezinha agora só consegue ficar em pé amarradinha assim. 

 É uma pena. 

 Nem tanto, sabe? Ela já machucou muita gente, essa rosa. Rosas como ela são feitas para serem admiradas de longe, chegar um tantinho perto e sentir seu perfume e, muito de vez-em-nunca, acarinhar as suas pétalas vermelho-sangue. Nunca o caule, fiquem longe o quanto puderem dele, os espinhos lá são quase imperceptíveis, mas pontiagudos e afiadíssimos. Quem sabe assim, tão debilitada aos olhos de quem vê, todos vocês não tomam mais cuidado ao tocá-la? É preciso ir desprovido de euforia, ausente de afagos, sem amor demais  principalmente sem isso. Pior do que ter suas pétalas arrancadas e amassadas é a dor de ferir com espinhos quem só está ali pra te cuidar. Pobre do jardineiro. Eu havia de preferir ser só caule: verde e feio. Por caule puro ninguém se interessa, não ocorre a ninguém amá-lo sem o botão da rosa no topo. 

 Ninguém precisa de um cacto rosa no meio do jardim, o que ela ainda tá fazendo ali?

 (...) 

Olhou fixamente para os dedos das mãos cheios de marcas e curativos e respondeu:

 Eu ainda gosto dela.