Tudo se iguala.

Você pode não entender, pode me chamar de fútil, mas do que eu tô precisando agora é de umas dessas doses de amor, pode ser do paraguaio mesmo. Até prefiro que seja. Pode ser um falsificado convincente com dor de cabeça garantida no dia seguinte, efeito colateral de arrependimento, ressaca moral: tô aceitando. 

Preciso que desçam queimando, rasgando a garganta, com careta de amargo no final. Um amor-alcaçuz — doce no começo e amargo no final. Desses de te fazer perder a cabeça e não querer nem lembrar no dia seguinte. Daqueles que só duram enquanto houver lua no céu, estrelas penduradas e fim. 

Depois acaba e não vai pesar. Não há pesar. Antes que você perceba, já passou. É natural que seja assim, é ideal, porque não dá tempo de machucar. Chorar é vão, meu bem. Lágrimas mornas são para as pessoas azuis, só pra elas. É só questão de se bastar.

Já tenho asas.

Quase que eu me perdi nesse abismo interior. Foi por pouco. Não sei como consegui sair viva - diria ilesa, mas machucado foi o que eu mais tirei daí. Os curativos tive que fazer eu mesma, só eu enxergava onde doía. De novo a ferida escancarada, de novo o ácido pingando gota-a-gota nela. Doeu, ardeu, latejou. Dias, semanas, meses. Tempo demais.

Tinha coisa demais na história, também. Pensamentos demais, medos demais, amor demais. E aí eu explodi. De estar cheia de tudo isso - você pode pensar. Não foi. Explodi por não conseguir prender o vazio aqui dentro. Fiquei vácuo, fiquei oca, fiquei nada.

Me desfiz pra me refazer com jeitinho, tentando lembrar dos detalhes meus antes de, buscando na mente as pessoas que realmente importavam e se importavam, resgatando os retalhos perdidos no caminho. E pronto, já me consertei. E agora, veja bem, não tem quem me acorrente com olhares nem sorrisos. Me incluí um par de asas, to aprendendo a voar.