Antes tarde...

Ô, darling, sai dessa manta cinza, sai. Aqui fora nem tá fazendo tanto frio assim. Deixa esses sentimentos congestionados seguirem em frente. Segue em frente você também. Já passou da hora. Life goes on. Já tá cicatrizando, não tá? Você mesma disse que estava. Então.. desapega, beibe. Não de ninguém, mas dessa mania de dor. Martírio pra quê? Larga disso. Ficar impondo a si mesma esse sofrimento, assim. Para. Até parece que gosta.

Fica tão difícil de ir embora, eu sei. Deixar ir, abrir mão e desistir parecem palavras tão covardes. Nenhuma digna de você. Cansar eu cansei, você também cansou. Mas sentir não é fraqueza não, darling. Sentir não é pecado. É isso que você precisa entender. Não precisa se crucificar desse jeito. Todos estamos sujeitos a isso. Ninguém se salva. O pior é esse. Sobre a hora de parar? A gente sabe quando passa a fazer mais mal do que bem. E aí insistir só machuca.

Enfim, em fim.

Tired.

"I'm tired of trying
Your teasing ain't enough
Fed up of biding your time
When i dont get nothing back"
Tired - Adele


À noite eu coloco um moleton surrado, prendo o cabelo no alto, faço um café forte e fico. Custo a dormir, às vezes. Os dias têm sido difíceis de atravessar. Uma barra passar sozinha por tanta coisa assim de vez. Cheia de amigos ao redor, te ligando, disputando espaço na sua agenda corrida de fim de semestre, mas ainda sozinha. Ando constantemente cansada, que será? Será que o que já foi não volta, baby.

Quando não é você que tropeça nos dias, são eles que te atropelam. E aí desanda tudo. Esse lado meio escondido que a gente tem escorrega das mãos no solavanco e cai. Fica todo espalhado no chão, as folhas voando longe com o vento, a chuva molhando tudo, borrando o papel, disfarçando as lágrimas. Todos param e olham o seu desespero inútil em tentar recolher a bagunça. Tudo escancarado, você jogada ali, toda exposta. Não adianta, menina. Já foi. Recolhe tudo com calma, vai arrumando as páginas na ordem, tem problema se algumas se perderem no processo, não. Deixa elas caírem nas poças e se desfazerem. Melhor pra você.

Que horror viver. Cansa demais. E volto ao cansaço do começo. A rotina me cansou um bocado. Sair da rotina quase me levou à loucura e eu quis - ainda quero - voltar pra ela e não consigo mais. Desestabilizou. Mas continuo. As pessoas me cansaram tanto que, CreinDeusPai! Tomei um abuso delas que só vocês vendo. E continuo. Cansada. Persistindo, com a fé minguada. Mas ali.

O que dizer.

Que te dizer?

Que te ver todos os dias da semana me faz um bem danado e que não ver deixa um nozinho apertado na garganta. Não desata. Que conversar com você faz as palavras ficarem docesdocesdocíssimas e, de tanto doce, pode amargar de vez em quando. Que o seu abraço tem sido o mais sincero dos últimos tempos e te abraçar dá vontade de não largar mais. Que você foi a minha melhor aquisição na categoria 'pessoas' do ano. Que o seu cheiro é muito-seu e pra sentir é só respirar mais fundo do seu lado. Muito-seu. Que você sabe como me irritar com comentários ao mesmo tempo em que sabe muito me fazer chorar com as palavras bonitas que diz. Que as suas sms não cabem mais na caixa de entrada do celular, mas estão todas guardadas em mim. Que eu não sei te dividir com os outros. Que você, sem sombra de dúvidas, é Leão com ascendente em Leão. Ô, se é. Que seu pé podia ficar repousado sobre o meu o dia-inteiro-todo-dia e sobre a perna também. 

Que te dizer, agora, que já disse todas essas coisas?

Consulta

- Onde dói? Perguntou o doutor.

Dói tudo, cada partezinha do meu corpo, cada membro, cada fio de cabelo. Dói nas pernas. Tá muito pesado pra carregar esse fardo sozinha. Tá tudo pesado demais. Essa cadeira também não é das melhores, né. Meus olhos também doem, sabe? Uma certa dificuldade de enxergar. Na verdade tá um pouco escuro, aqui. Você não acha? Ah, é. Minha barriga tem se revirado muito, esses dias. Uma coisa meio vazia, ou cheia de coisa que não devia estar ali. Queria conseguir vomitar. Nunca consegui enfiar o dedo na garganta pra forçar. Queria saber. Hm, onde mais? Meus pés, eles doem sempre que ando um pouco mais além do que o casa-ponto-de-ônibus, ou casa-shopping. Sempre que eu ando demais, procurando desnorteada pelo que não está ali, nem nunca esteve, ou esteve um dia e já se foi. Dói no coração. Esse eu estava guardando pro final. Principalmente nele. Que a cada sístole eu sinto uma dor fina atravessando o peito e com diástole o alívio repentino. Podia ter só sangue preenchendo ele. Mas, não... me inventaram de entupir até a tampa com sentimento. Agora já era. Dói e não para, Doutor.

- É só uma dor de cabeça muito forte que eu tenho sentido faz vários dias, Doutor. Só ela. Tomando um analgésico passa, não é?

A Dora.

Diria que ela é magricela, tem a estatura normal de mulher, cabelos pretos-quase-azulados na altura das costas, olhos igualmente escuros com longos cílios. Diria a quem perguntasse que a Dora é assim, mas ainda não seria capaz de descrevê-la. Jamais conseguiria colocar toda aquela singularidade em palavras. Ímpar, eu posso afirmar. Em ambos os sentidos: que não se pode comparar e que não é divisível por dois. Sim, estava sempre sozinha, apesar de andar constantemente acompanhada de belos rapazes. Não se deixava somar.

Eu entendi e atribuí o conceito ímpar à Dora tarde demais. O estrago já estava consumado. Não fui forte o suficiente para resistir ao cheiro seu perfume doce. Era demais pra mim. Ainda sinto ele no canto do sofá, às vezes. É estonteante. Ai, como a ausência da Dora me dói vezemsempre. Penso&Desejo muito a bendita. Escrevo bastante sobre ela, também. Merda! São sempre as mesmas palavras tresloucadas e excruciantes que ficaram entaladas na garganta quando ela me deu o último beijo pra guardar de lembrança.

Não mencionei, mas nesse exato momento eu estou na mesa do bar. Sozinho, tendo desatinos sobre Dora. Bebi o resto da cerveja do copo, pedi outra pro garçom, traguei o cigarro bem uns três segundos. Veio aquela vontade insaciável que você sente do sorriso da pessoa. Puta, que merda. Fumaça. Mais cerveja no copo. Nunca fui de beber nem fumar assim. Eu tô é enlouquecendo sem essa mulher. Realidade absurda, essa. 

Se eu estivesse em casa colocaria Adele pra tocar. O Cd 21. Deprimente. Tomaria um banho, na tentativa frustrada de lavar Dora da minha cabeça. Tomaria algum remédio e apagaria na cama. Mas eu estou aqui e agora, querendo as mãos dela, uma em cada lado do meu rosto, alisando a minha barba mal feita. merdamerdamerda! Meu Deus, me tira daqui. Tira a Dora de mim.

É assim a Dora, mas ela adora.

Vermelho

"As vezes eu só quero descansar
Desacreditar no espelho
Ver o sol se pôr vermelho
Acho graça
Que isso sempre foi assim
Mas você me chama pro mundo
E me faz sair do fundo de onde eu tô de novo"
(Marcelo Camelo - Vermelho)

A ordem agora é suavizar. Ser leve, se deixar levar. A brisa há de nos carregar para um lugar silencioso. Com uma maré mansa e um sol vermelho se pondo. Deita nessa rede, deixa ela balançar compassada, você ajudando ela um pouco com o pé batendo na parede quando ela ameaçar parar. Fecha os olhos, descansa dessa vida, que ela cansa e não é pouco.

Carrega nos olhos o entardecer, mas amanhece com vontade amanhã. Deixa as coisas inesperadas te fazerem ruborizar, Menina. Vermelhinho nas bochechas e corando. É uma graça, sabia? Todos acham. Você precisa de mais fé em si mesma, porque diferente você já é.

O dia que virá tem que ser vermelho, a gente torce pra que seja. Com força. Vermelho porque é intenso, é marcante, nunca passa despercebido e é amável. O dia que vai vir não pode nunca ser em vão. Os pés tem que carregar alguma coisa que caia pela estrada pra marcar o caminho. Não pode se perder. Não podem te perder assim, por descuido.

O barco vai encontrar a margem. O pôr-do-sol vai guiá-lo.

Palavras para Agosto

Li Machado de Assis desmerecendo Agosto. Li Caio Fernando dando dicas de como atravessar esse mês. Li muito sobre Agosto em Julho. Entendo como uma certa ânsia de que esse mês acabasse logo. Era isso. E eu já to com ojeriza antes mesmo da primeira semana se completar. Não que nunca tivesse vivido Agostos antes, mas... nem me atrevo a continuar.

O mês que passou me disse que todo mundo ainda é analfabeto funcional quando a matéria é Vida. Mas agora o mês é outro. Agosto, me diz: Há gosto em você? Preciso saber como me prevenir contra as barras que podem surgir. Tá punk. Não acredito que horóscopo ajude nessas horas. A órbita dos planetas tá toda bagunçada pro meu lado. Sempre esteve.

Eu até tinha uma coisa incrivelmente boa, mas insuportavelmente efêmera. Tão efêmera que passou antes mesmo de terminar a frase anterior. E tudo me conduziu para este here and now. Eu só quero me sentir bem. Bem longe. Em algum lugar onde os sorrisos ainda sejam coisas sinceras e os abraços, bonitos. Onde o outro importe. Se importe.

Agosto, você pode vir suave. Sem muita pressa de acontecer, bem devagarzinho, se for pra ser azul. Mas não se demore muito a acabar, visse? Que eu fico daqui agoniada com tanta vagareza nos dias, a semana parece que emperra e custa a passar. Dá uma aflição, um aperto aqui no peito. Agosto, essas são palavras pra ti, pra mais ninguém. Pegue elas que ainda estamos no terceiro dia, vai. Anda.