Para o velho e querido pai.

Sei que você nunca leu nada do que eu escrevo, ler logo esse texto pode ser um baque, mas é que se eu escrevê-lo e você não ler ele perderá o sentido e o propósito. Pode chorar porque eu já estou em únicas três linhas.

Eu sei também que a vida tem sido doída, você sofre daí e eu duplamente daqui, paizinho. É difícil nadar contra a correnteza, mas você é forte e foi quem me ensinou a nunca desistir dos sonhos e sempre perseverar. É o que eu te peço agora. Olha pro alto que ajuda. Se apóia na fé e lembra que o meu amor não acaba nunca.

As coisas hão de melhorar. Você nunca tirou aquele bom e velho sorriso do rosto e não é agora que isso vai acontecer. Tudo vai ficar lindo, exatamente como deve ser. Eu acredito e um dia vou me gabar dizendo que "eu avisei, ein".

Um beijo da sua filhota.

Nunca erro

Eu sei que a vida pode cair na mesmice algumas vezes – ou mais vezes do que gostaríamos. E eu não vejo, desculpem a falta de incentivo, nada que esteja ao nosso alcance que possa evitar. É natural e não adianta chorar, espernear, pensar em tirar a vida, desistir de tentar, ficar bêbado, nem muito menos reclamar. Não tem pra onde correr. Esses dias cinzas vêm sem serem convidados e se prolongam se você der espaço.

Deixe estar que as cores vão voltando aos poucos, é só não perder aquela coisa que dizem ser a última que morre – mas que pra mim deveria não morrer nunca, a verdade é essa. A esperança traz de volta uma parte do que se perdeu, ela conserva na memória o essencial. Não perca a esperança nunca, por favor. Não deixe os sonhos se esvaírem daí de dentro. Eles são tão bonitos e doces.

Eu sinto uma coisa bem forte nesse momento. Sinto que as coisas boas estão chegando por aqui – também por todos os lados – e estão lotadas de sorrisos e abraços bons. Minhas intuições e pensamentos estão sempre certos, believe me.

Palavras cuspidas, um desabafo.

Se hoje eu choro, já nem sei mais o porquê. Não entendo tampouco os soluços que intercalam essas lágrimas mornas. Nem quentes, nem frias. Algum lugar intermediário onde não é tanto, nem tão pouco. Não sei onde fica. Mas tem alguém lá que eu conheço de vista. Nada profundo, nem por inteiro.

Estou estilhaçada. Cacos estrelares apagados pelos quatro cantos de mim. E o que posso fazer, se essa dor – ainda que quebrada – continua ardendo como chama acesa? Já faz um tempo que eu virei um rascunho do que quero ser, ou devia ser e não me permito. A coisa ficou punk.

Tenho andado aos trancos, tropeço em cada calçada mais elevada, sou deveras aluada e na minha tentativa frustrada de afastar aquilo que não me faz bem, minhas pernas vacilam e eu desabo. Me derramo. Ando arrastada por um instante, não gosto da sensação de ter falhado. Desanimo numa proporção assustadora, preciso da coragem de uma vida inteira para me erguer de novo.

Mas eu continuo. Com a minha meninice de sempre, sonhos leves e um coração extraviado que não tem previsão de volta.