Marcelo e Fernanda em: Uma história diferente.

A cafeteria Le Pettit Cafe tinha um quê americano. O cheiro inebriante de café pairava no ar; Nas mesas, as pessoas bebiam cappuccinos acompanhados de cupcakes de marshmallow e cookies de chocolate. Os sofás eram de cor nude e acolchoados, formando uma meia-lua em volta das mesas. No cantinho havia uma Jukebox tocando blues e jazz, estilos de música mais apreciados pelos freqüentadores do local.

Marcelo, um moço de sorriso iluminado e amante da literatura, é um desses freqüentadores. Vai à Le Pettit todos os dias, sempre no mesmo horário: 7:00hr. As idas se tornaram um ritual matutino. O pedido era sempre o mesmo: um cappuccino duplo com bastante espuma e muffins de brigadeiro. Sentava-se na mesa mais afastada, perto da imensa janela de vidro e tomava o seu café da manhã. Trinta minutos exatos. Talvez o destino cronometrasse tudo.  Levantava e ia trabalhar.

No mesmo instante, às 7:30hr, chegava Fernanda. O pedido sagrado de todos os dias era um Café Mocho e Cookies, para acompanhar. Ela tinha cabelos pretos-quase-azuis pouco acima do ombro e bochechas rosadas. Sentava-se – por mera coincidência, ou não – na mesma mesa afastada e perto da janela de vidro, tomava o seu café da manhã e ia à Universidade.

Os desencontros aconteciam desde que o Café foi aberto. Estranho é o fato de aquela mesa só ser usada por eles dois. Quem sabe um deixava um pouco de si para o outro sentir na manhã seguinte, ou minutos depois. Eles já se conheciam e nem sabiam disso.

Sábado tudo mudaria. Era o dia de folga de Marcelo. Ele foi à Cafeteria, fez o mesmo pedido de sempre, sentou-se e começou a ler um livro. Poucas páginas depois e ele não se lembrava sobre o que tinha lido. A leitura teria que esperar. Fechou o livro, colocou no sofá, pegou a chave de casa na mochila e começou a rabiscar a mesa de madeira. Desenhou um homem sentado no banco do parque, segurando um copo de café e tomando banho de chuva. Escreveu uma frase de Caio Fernando Abreu que dizia “Por que estamos tão perto e tão longe?” e assinou no canto. Foi embora dali e, no momento exato em que saía, Fernanda entrava. Segurou a porta para ela, que respondeu com um tímido: “Obrigada, moço.”.

Fila. Balcão. O pedido de sempre. Ao sentar-se na mesa, viu o desenho e ficou encantada. Quem seria o tal Marcelo da assinatura? Ela estava curiosíssima, afinal ele havia citado uma frase do seu escritor favorito. Tirou o prendedor de cabelo de metal dos cabelos e completou o desenho. Fez uma mulher sentada na outra ponta do banco, com um sorriso no canto da boca e segurando um guarda-chuva na direção do moço. Citou Caio na parte de cima do desenho: "Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." e assinou.

Quando acabou, viu o livro esquecido ao seu lado. Folheou algumas páginas e decidiu levá-lo para casa, um dia encontraria o dono – e, inconscientemente, esperava que isso acontecesse logo. Olhou para o relógio e percebeu que havia perdido a noção do tempo. Precisava chegar à Universidade em quinze minutos, tinha que se apressar. Pegou o café, colocou o livro dentro da bolsa e saiu correndo.

Incontáveis passos depois, Marcelo percebeu que havia esquecido o livro lá e retornou para buscá-lo. Eles se cruzaram no caminho, dois estranhos andando pela mesma rua, indo em direções opostas. Fernanda se esbarrou sem querer em Marcelo, deixando derramar todo o café no meio da calçada.

- Ai, que desastrada eu sou. Me desculpa, moço. Derramei em você? É que eu estou com muita pressa, preciso chegar ao ponto de ônibus... – Ela começou a tagarelar nervosa.

- Tudo bem, não precisa se preocupar. – Interrompeu-a - Se quiser eu posso te pagar outro... Hm, Café Mocho?

- Ah, obrigada, mas eu não tenho tempo. Me distraí com um desenho na mesa e agora estou atrasada para a...

O ônibus já se aproximava na rua. Ela ainda arriscou gritar enquanto corria: – Tenho que ir, tchau. – E foi.

Marcelo continuou o seu caminho, surpreso que ela tivesse visto o seu desenho e, principalmente, se atrasado por causa dele. Entrou na Cafeteria, mas o seu livro não estava mais lá. Ao invés dele, havia outra coisa na mesa que chamou a sua atenção. Havia traços a mais no desenho. Agora, também sentada no banco, estava uma mulher segurando um guarda-chuva e sorrindo; Outra frase de Caio Fernando e a assinatura. Eis o nome da moça desastrada: Fernanda!

O dia dos dois foi pensativo. Nem ela conseguiu se concentrar nas aulas, nem ele em nada que tentasse fazer para aproveitar a folga. O domingo passou arrastado, parecia que o tempo queria irritá-los, os ponteiros preguiçosos do relógio quase-não-rodando.

Manhã de segunda-feira. De tão distraído que estava no dia anterior, Marcelo se esqueceu de ajustar o despertador, que só tocou muito atrasado. Levantou apressado, vestiu a primeira roupa que encontrou pela frente, pegou a mochila e saiu de casa, ainda sonolento. Entrou na Le Pettit, pediu o seu café, mas não se sentou – foi tomando no caminho. Mal olhou para os lados, nem percebeu que Fernanda estava lá, ao lado do desenho, esperando quem-quer-que-fosse-Marcelo aparecer para devolver o livro. Como ele não chegou, ela foi embora. Frustrada pela espera em vão.

O céu estava cheio de nuvens pesadas, com certeza choveria. E choveu. Choveu o dia inteiro, sem parar. No final da tarde, Fernanda pegou o ônibus e saltou no ponto perto da Cafeteria. Sua casa ainda estava há cinco quarteirões dali, mas ela resolveu ir debaixo da chuva, não se importava. Jogou o capuz fino do capote por cima da cabeça, como se adiantasse alguma coisa contra as gotas violentas que as nuvens arremessavam e começou a andar. No meio do caminho, um homem se aproximou dela, abriu o guarda-chuva e disse:

- Minha vez de te salvar da chuva, Fernanda.

Uma alma especial reconheceu de imediato a outra.

12 comentários:

Thays Petters disse...

perfeito!

Tainá disse...

Vixe, tá difícil de eleger qual texto seu é melhor! Filha, tô encantada com vc!

Investe!!
:*
Te amo.

Jaya Magalhães disse...

Brenda,

Eu acho que você devia investir nessa coisa de contos. Sabe, você ambienta a situação, rabisca os personagens, os gestos, as características, tudo de um jeito que faz parecer filme, para quem lê. O roteiro, então, nem se fala! A maneira como os parágrafos se conectaram, como um detalhe foi construindo uma conclusão logo abaixo, sabe? Eu terminei de ler feliz. E achei também que dessa vez, Marcelo e Fernanda estavam bem amadurecidos. Cresceram em você e nas palavras.

Não para não, bêibe.

Um beijo enorme!

Fernanda G. disse...

Ficou perfeito, magrela.
Não poderia ficar melhor! =D
Beijooos

Fernanda G. disse...

Ficou perfeito, magrela.
Não poderia ficar melhor! =D
Beijooos

Tays Esquivel disse...

Todas às vezes em que venho aqui, ver o que você escreve, eu me sinto extremamente feliz. Vejo quem em você escrever é muito mais que só escrever. Sinto que escrever é mais você, do que você mesma.
Fico encantada com a forma que você escreve, Brenda, e estou maravilhada com esse texto. É tão bonito, feliz e tão cheio de amor. (Fora o fato de que cita um dos meus escritores favoritos).

Parabéns, linda. Que você possa nunca parar de abençoar a todos com seus escritos divinamente inspirados.

Má Midlej disse...

Você anda muito mais pra mais depois dos ares hospitalares, uh? rs
Olha, eu sou fã incondicional de Cecel e Nanda, e eu acho que eles simplesmente combinam com essa coisa de amores repentinos e aparentemente sem sentido. Porque assim são, e ponto final.

Isso que você fez com eles, merece ir pro nosso blog, sabe? Aliás, merece ir também prum livro, pruma tela de tv, de cinema, pro sonho de um monte de gente...

TÁ LINDO DEMAIS, MEU ANJO!

Ju Fuzetto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ju Fuzetto disse...

É nos pequenos detalhes descritos aqui, que eles se moldam assim como a chuva gruda nos poros, eles se encontram no amor!

Tão lindo tudo por aqui. As palavras entre um café e outro saem livremente...


Um beijo. Parabéns!

Fernanda disse...

Ameeei Bêe !
Liindo demaiis :)

Tarcísio (Tato) Messias disse...

Lindooooo!
Muito boa história, Bê! Envolvente e muito bem costruída.

Onde é que eu assino o contráto pros direitos de filmagem do conto? hauhaua

Parabéns!

=*

Deby disse...

Perfeito!!
Amei. Vc é boa nas palavras, mocinha!
Parabéns!