Quel life!

Não adianta, eu tenho plena convicção de. Não adianta chorar, gritar, espernear, soluçar. Tudo que você fizer não irá adiantar. Nada do que você fizer irá adiantar. A vida é fria, sem coração e será sempre cruel, não importa o que você cultive por dentro. Se amor ou ódio, não faz diferença. Como se fosse uma maldade-divertida, ela pinga ácido na ferida recente e escancarada. Dói. Arde. Agoniza.

E, só pra melhorar: Não há o que fazer, pois somos reféns do querer do destino.

Escrever vai além do que se lê

Quando o coração não aguenta a enchente de sentimentos, a chuva cai pelos olhos e, não bastando, transforma-se em palavras. Escrevo essas pequenas que são carregadas de emoção e pinceladas de poesia, enquanto elas dançam e rodopiam embaladas pelo som das minhas batidas aceleradas. Uma taquicardia para cada frase.

Pinta um orgulho-bobo-bonito quando um ou outro diz que elas são lindas. Eu acho elas lindas. Elas próprias se acham lindas, essas orgulhosas. E são. Lindas, tristes, saudosas, dolorosas, alegres, angustiantes, aflitas, desesperadas, feias. São feias de doer no osso. Ri-dí-cu-las. São tudo isso e o que mais quem lê quiser que elas sejam.

Palavras me entregam de bandeja a qualquer um, não há como negar. Disso eu não posso reclamar, pois escolhi assim. Só escrevo o que sinto, e da maneira mais boba possível. Elas cheiram a estrelas e tem sabor de morango mergulhado no leite condensado.

Em mim, escrever é muito mais do que só escrever. 
Escrever é mais eu, do que eu mesma.

Marcelo e Fernanda em: Uma história diferente.

A cafeteria Le Pettit Cafe tinha um quê americano. O cheiro inebriante de café pairava no ar; Nas mesas, as pessoas bebiam cappuccinos acompanhados de cupcakes de marshmallow e cookies de chocolate. Os sofás eram de cor nude e acolchoados, formando uma meia-lua em volta das mesas. No cantinho havia uma Jukebox tocando blues e jazz, estilos de música mais apreciados pelos freqüentadores do local.

Marcelo, um moço de sorriso iluminado e amante da literatura, é um desses freqüentadores. Vai à Le Pettit todos os dias, sempre no mesmo horário: 7:00hr. As idas se tornaram um ritual matutino. O pedido era sempre o mesmo: um cappuccino duplo com bastante espuma e muffins de brigadeiro. Sentava-se na mesa mais afastada, perto da imensa janela de vidro e tomava o seu café da manhã. Trinta minutos exatos. Talvez o destino cronometrasse tudo.  Levantava e ia trabalhar.

No mesmo instante, às 7:30hr, chegava Fernanda. O pedido sagrado de todos os dias era um Café Mocho e Cookies, para acompanhar. Ela tinha cabelos pretos-quase-azuis pouco acima do ombro e bochechas rosadas. Sentava-se – por mera coincidência, ou não – na mesma mesa afastada e perto da janela de vidro, tomava o seu café da manhã e ia à Universidade.

Os desencontros aconteciam desde que o Café foi aberto. Estranho é o fato de aquela mesa só ser usada por eles dois. Quem sabe um deixava um pouco de si para o outro sentir na manhã seguinte, ou minutos depois. Eles já se conheciam e nem sabiam disso.

Sábado tudo mudaria. Era o dia de folga de Marcelo. Ele foi à Cafeteria, fez o mesmo pedido de sempre, sentou-se e começou a ler um livro. Poucas páginas depois e ele não se lembrava sobre o que tinha lido. A leitura teria que esperar. Fechou o livro, colocou no sofá, pegou a chave de casa na mochila e começou a rabiscar a mesa de madeira. Desenhou um homem sentado no banco do parque, segurando um copo de café e tomando banho de chuva. Escreveu uma frase de Caio Fernando Abreu que dizia “Por que estamos tão perto e tão longe?” e assinou no canto. Foi embora dali e, no momento exato em que saía, Fernanda entrava. Segurou a porta para ela, que respondeu com um tímido: “Obrigada, moço.”.

Fila. Balcão. O pedido de sempre. Ao sentar-se na mesa, viu o desenho e ficou encantada. Quem seria o tal Marcelo da assinatura? Ela estava curiosíssima, afinal ele havia citado uma frase do seu escritor favorito. Tirou o prendedor de cabelo de metal dos cabelos e completou o desenho. Fez uma mulher sentada na outra ponta do banco, com um sorriso no canto da boca e segurando um guarda-chuva na direção do moço. Citou Caio na parte de cima do desenho: "Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." e assinou.

Quando acabou, viu o livro esquecido ao seu lado. Folheou algumas páginas e decidiu levá-lo para casa, um dia encontraria o dono – e, inconscientemente, esperava que isso acontecesse logo. Olhou para o relógio e percebeu que havia perdido a noção do tempo. Precisava chegar à Universidade em quinze minutos, tinha que se apressar. Pegou o café, colocou o livro dentro da bolsa e saiu correndo.

Incontáveis passos depois, Marcelo percebeu que havia esquecido o livro lá e retornou para buscá-lo. Eles se cruzaram no caminho, dois estranhos andando pela mesma rua, indo em direções opostas. Fernanda se esbarrou sem querer em Marcelo, deixando derramar todo o café no meio da calçada.

- Ai, que desastrada eu sou. Me desculpa, moço. Derramei em você? É que eu estou com muita pressa, preciso chegar ao ponto de ônibus... – Ela começou a tagarelar nervosa.

- Tudo bem, não precisa se preocupar. – Interrompeu-a - Se quiser eu posso te pagar outro... Hm, Café Mocho?

- Ah, obrigada, mas eu não tenho tempo. Me distraí com um desenho na mesa e agora estou atrasada para a...

O ônibus já se aproximava na rua. Ela ainda arriscou gritar enquanto corria: – Tenho que ir, tchau. – E foi.

Marcelo continuou o seu caminho, surpreso que ela tivesse visto o seu desenho e, principalmente, se atrasado por causa dele. Entrou na Cafeteria, mas o seu livro não estava mais lá. Ao invés dele, havia outra coisa na mesa que chamou a sua atenção. Havia traços a mais no desenho. Agora, também sentada no banco, estava uma mulher segurando um guarda-chuva e sorrindo; Outra frase de Caio Fernando e a assinatura. Eis o nome da moça desastrada: Fernanda!

O dia dos dois foi pensativo. Nem ela conseguiu se concentrar nas aulas, nem ele em nada que tentasse fazer para aproveitar a folga. O domingo passou arrastado, parecia que o tempo queria irritá-los, os ponteiros preguiçosos do relógio quase-não-rodando.

Manhã de segunda-feira. De tão distraído que estava no dia anterior, Marcelo se esqueceu de ajustar o despertador, que só tocou muito atrasado. Levantou apressado, vestiu a primeira roupa que encontrou pela frente, pegou a mochila e saiu de casa, ainda sonolento. Entrou na Le Pettit, pediu o seu café, mas não se sentou – foi tomando no caminho. Mal olhou para os lados, nem percebeu que Fernanda estava lá, ao lado do desenho, esperando quem-quer-que-fosse-Marcelo aparecer para devolver o livro. Como ele não chegou, ela foi embora. Frustrada pela espera em vão.

O céu estava cheio de nuvens pesadas, com certeza choveria. E choveu. Choveu o dia inteiro, sem parar. No final da tarde, Fernanda pegou o ônibus e saltou no ponto perto da Cafeteria. Sua casa ainda estava há cinco quarteirões dali, mas ela resolveu ir debaixo da chuva, não se importava. Jogou o capuz fino do capote por cima da cabeça, como se adiantasse alguma coisa contra as gotas violentas que as nuvens arremessavam e começou a andar. No meio do caminho, um homem se aproximou dela, abriu o guarda-chuva e disse:

- Minha vez de te salvar da chuva, Fernanda.

Uma alma especial reconheceu de imediato a outra.

Muito e pouco tempo

Leva um tempo absurdo até você perceber quanto tempo perdeu em tudo isso que sempre foi nada e entender que só é preciso mais uma dose de tempo, mano velho, para o temporal passar.


E eu, bonitos, só preciso de um tempo milagroso em minha vida.
Só volto a escrever com o coração quando o relógio for ajustado.

What. the. hell.

Não queria sentir essa falta. (E quando digo falta, entenda como saudade, vontade, dor. O raio que quiser.) Sou a dona do "Oi, tudo bem? Tudo ótimo" mais fajuto que você já conheceu. Se eu me deixasse dominar pelo impulso - e olha que esse bendito já me prejudica bastante! - passaria um tempo interminável numa conversa boba qualquer, só com a desculpa de ouvir a voz morna que faz cócegas no meu ouvido.


Quatro linhas: O máximo que a dose de inspiração da madrugada conseguiu.