Não aceite o meu chá

Isso de "é preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada" causa em mim um conflito interior absurdo. É inevitável a ansiedade diante da tua súbita aproximação. Minha pele fica completamente ruborizada e a vermelhidão esquenta as maçãs do meu rosto, fazendo-me suspirar - como aquelas chaleiras cheias de água quente, soltando o vapor e apitando sem parar.

23 de setembro

O dia amanheceu todo manhoso. A claridade que conseguia passar entre as nuvens, entrava pela janela e me dizia para levantar. Era inevitável murmurar, virar para o outro lado da cama ou puxar o edredom, o despertador já se descabelava tocando. Que preguiça.

O céu ostentava um arco-íris belíssimo, no meio da imensidão azul. Cedo da manhã, que inesperado! O sol, aquele exibido, brilhou intensamente e me deixou com calor. Lindo, lindo. A primavera já estava toda-toda no seu primeiro dia.

Estação das cores, dos amores, das flores. É inexplicável a sensação que sinto de querer poetizar até um piscar de olhos, um sorriso bobo qualquer. Setembrites agudas são doenças bastante comuns, nessa época do ano. E, abrindo o meu coração, sempre achei setembro um mês cheio de mistérios primaveris.

Amor, esse fardo.

     "MERCÚCIO — Sois um apaixonado. Por empréstimo tomai as lestes asas de Cupido, que heis de pairar por sobre a mediania.
     ROMEU — Tão traspassado estou por suas setas que suas lestes asas não conseguem transportar-me para o alto: tão peado, que não posso deixar a dor obscura, sob o fardo do amor gemendo sempre.
     MERCÚCIO — Mas para estar sob ele, é necessário que carregueis o amor, peso excessivo para coisa tão terna.
     ROMEU — Coisa terna julgais que seja o amor? Não; muito dura: dura e brutal, e fere como espinho.
     MERCÚCIO — Se o amor convosco é duro, sede duro também com ele, revidando todas as pancadas que der." (Romeu e Julieta, Cena IV – Shakespeare)


Acabaram os mimimi's, voltei a escrever sobre o amor - o mesmo de sempre.

Último pedido

A sua presença é um mistério e eu não pretendo tê-la por muito tempo, para poder desvendar. É perigoso, eu já sei. Evito de todas as formas que os nossos olhares se encontrem, porque eles sabem das coisas que ninguém sabe. É um mergulho cruciante nas águas amendoadas dos teus olhos. Fundo, quase sem fim de tão profundo.

Como se não bastasse a dor penetrante que sinto, chega você e diz o que eu quero-mas-não-posso-ouvir e traz de volta a enchente devastadora que eu tanto temo. O medo penetra com força no meu interior e eu desejo desesperadamente sair dali.

Se a minha solidão te dói, chafurda bem no fundo do teu peito essa loucura sem pé nem cabeça e me deixa só.

De dentro pra fora

Se tudo isso for pouco pra você, me desculpe, não há nada que eu possa fazer.

O que tenho dentro de mim, entrego-te.
O arrependimento, a aflição e a angústia que penetraram em minh'alma; A tristeza e a dor pungente que assolam o meu peito; O gosto amargo das palavras-quase-bonitas que ficou na minha boca; A agonia violenta que se apossou dos meus pensamentos, desde então.

Leva só isso contigo e não ouse voltar.

Pesadelo de realidade

Aquele dia tinha um ar surreal. O sol brilhava sobre a minha cabeça, deixando todo o corpo quente. A rua estava vazia, sem um pé de gente nela. Para onde haviam ido todos, nesse meu sonho maluco? As poucas silhuetas que eu consegui ver estavam distorcidas. Senti certa gastura ao olhá-las.

Uma sensação de enjôo me invadiu, era um aviso. Saia daí, as coisas irão terminar mal - ela parecia querer dizer. Não dei importância. Era só mais um daqueles sonhos bizarros que eu tinha freqüentemente, o que poderia acontecer de tão ruim?

Perdi os pensamentos em um longo devaneio, ficando totalmente aérea do ambiente. Voltei assustada e... as coisas haviam ficado estranhas. Não lembro das palavras que sussurravam para mim, estava confusa. Corre enquanto é tempo - dizia aquela voz vinda do inconsciente que ninguém nunca parece ouvir, mas no fundo sabe que sempre devia ter obedecido.

Os limites haviam se perdido. Eu, na verdade, havia me perdido de mim. Ali, eu descobri: Não era sonho, era realidade. Tarde demais.

E terminou. Não mal, mas péssimo.

Poesia de dor e amor

Escrever é a arte de vomitar os sentimentos em formas de palavras; É esvaziar-se das emoções e carregar cada pequena letra delas; É se expor entre as linhas. Eis aqui alguém que exercita essa arte.

Há dias nos quais a poesia brota delicadamente do peito, formando palavras leves e sutis. Noutros, ela rasga tudo por dentro até conseguir sair. Doloroso. Ora doce, ora amarga. Poesia de dor, poesia de amor - qual é mesmo a diferença?

Se a dor da ausência me corrói, sou linda e saudosa. Se fantasio as alegrias, sou cheia de esperança e fé. Se o amor me cansou, sou profunda de se ler. Quer dizer que é assim? A minha dor é bonita? Carrega ela com você, então.

Se eu escrevo coisas lindas? Os outros que dirão.
Mas não adianta nada ser lindo.