De alguém que nunca amou

"É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Ela crê que sim."
(Amar, verbo intransitivo - Mário de Andrade)


O amor virou matéria escolar, para se ensinar? Ah, se assim fosse... Meu coração iria direto para a recuperação final. Não se ensina a amar, nem se aprende tampouco. Não se nasce sabendo – uma pena, eu lamento –, nem se morre sem senti-lo.

Amor se descobre. Quando menos se espera, ele desperta e inunda o ser por inteiro. Pedaço por pedaço, membro por membro, neurônio por neurônio; Cada gota de sangue é revestida e todos os batimentos cardíacos são impulsionados por ele. O bendito. O amor.

Já sabes, então, como acontece o sentimento. Acalma-te, pois esse dia há de chegar. Será em um verão. Sol, praia, água de côco, bronzeador e acarajé. Ou no inverno, porque não? Chuva, filmes, cobertor, meia e chocolate quente. A primavera virá independente da estação.

Marcelo e Fernanda em: O ponto de ônibus.

14 de março de 2009.

Era um dia de calor. Daqueles que gritavam por um sorvete de menta, na volta pra casa. Comprei o meu sorvete e fui para o ponto de ônibus. Fiquei ali parada por longos minutos. Foi quando conheci Marcelo.

Só havíamos nós, ali. Aliás, em toda a rua. Comecei a sentir uns sintomas de medo, porque o garoto não parava de olhar para mim. E para o meu sorvete também. Seus olhos se moviam cautelosamente do meu rosto, para o meu cabelo, passando pelo sorvete, até as minhas roupas. E assim ele continuou, pelo que, me pareceram, horas intermináveis. Fiquei constrangida e soltei um daqueles sorrisos sem graça, seguido de dois passos para longe.

Minha curiosidade falava mais alto, dessa vez. Comecei a observá-lo. Era bonito. Não bonito nos padrões que todos especificam. Bonito para mim. Atraía-me. Agora parecia inquieto, o moço. Catava alguma coisa no bolso da calça mas não conseguia achar.

Ele veio andando em minha direção, me olhando como se eu fosse sua única esperança. E falou:

“Oi, tem um cigarro?”

Por alguns segundos, temi o motivo da sua aproximação. Depois de ouvir o seu pedido, sorri e falei educadamente:

“Tenho não, moço, não fumo. Mas tenho Halls! Que é bem melhor!” – E estendi o pacote de Halls na sua direção.

Ele aceitou de imediato.

“Não acredito que você não fuma! Estranha, você. Você toma sorvete verde... e não fuma.” Ele disse com um tom de deboche.

Aquele garoto não sabia o que era sorvete de menta? Era a oitava maravilha do mundo!

Gargalhei alto. Enquanto repetia “Sor-ve-te Ver-de” pausadamente. Continuei tendo uma crise de riso.

Quando, enfim, consegui parar de rir, me apresentei.

“Fernanda, prazer. Qual é o seu nome?”

“Marcelo.” Ele respondeu num tom quase inaudível.

Depois de algum tempo de conversa, eu já tinha apresentado a oitava maravilha do mundo para ele. Sorvete de menta, Marcelo. Marcelo, Sorvete de menta. Compartilhei da minha paixão frenética pelos Smiths e.. Ah! Estudávamos na mesma faculdade! Como eu nunca tinha o visto por lá? Não importa o motivo. Agora, eu conhecia o Marcelo.

Não havia tempo para mais conversa, o ônibus tinha acabado de chegar. Porque logo hoje o ônibus decidiu não se atrasar?

Estampei um dos meus melhores sorrisos e me despedi. Despedida de mentira, eu teimava em pensar. E na minha mente, vinha uma cena de filme, em que o Moço vai atrás da Donzela. Entrei no ônibus e ele estava vazio, exceto pelo motorista e o cobrador. Sentei em uma das cadeiras vazias, lá na frente. E meus olhos brilharam, quando olhei para trás, e vi Marcelo subindo, ainda meio desnorteado.

Fiz sinal para que ele sentasse do meu lado, e disse:

“Guardei um lugar pra você, Marcelo. Fiquei imaginando quanto tempo você demoraria pra subir aqui..." – Surpreendeu-me ele ter vindo atrás de mim.

“Eu não demoraria, esse também é o meu ônibus. – ele retrucou - Então, garota-do-sorvete-verde, quer dizer que tens todos os CDs dos Smiths?

“Tenho. E ouço praticamente, todos os dias.” – Fiz questão de me gabar. E ainda continuei:

“Hmm, quero saber porque você acha que sorvete de menta não é bom. Você já provou, por acaso?” – Era inaceitável alguém que já tivesse provado, não gostar.

E ao longo do caminho, a conversa se desenrolou. Falamos sobre política – particularmente, era a mais informada, dos dois -, sobre gostos musicais – alguns parecidos, e outros, nem tanto assim -, sobre filmes – e nesse quesito, tenho direito de revolta. Quem, em sã consciência iria comparar Taxi Driver com O Poderoso Chefão? Aquele menino era maluco, definitivamente.

Qual era a minha vontade? Que o ônibus nunca chegasse no ponto. Era uma vontade estranha, aquela. Principalmente quando se trata de um pseudo-conhecido. Mas o Marcelo era daquele tipo que não se tem vontade de sair de perto. Ele vestia uma calça jeans surrada. Calçava um vans. E usava uma daquelas munhequeiras de couro, com fivelas. O meu tipo de garoto.

O ônibus parou. Deu um aperto no coração e eu falei:

“É aqui que eu desço. Não vai me dizer que aqui também é o seu ponto?” – utilizei a minha ironia, há tanto tempo guardada.

“É, não vou lhe dizer se você não quiser que eu diga.” Ele retrucou e fez uma careta, depois.

Maluco. Maluco de pedra.

Já era a hora. O motorista e o cobrador já deviam estar impacientes, a essa altura.

“Tchau, Marcelo.”

O beijei no rosto. Demorei, sem perceber. Queria que aquele instante não acabasse. Que ficássemos ali. Juntos. Nós dois. E fui me perdendo em devaneios, enquanto descia do ônibus. Andei mais duas quadras, até chegar em casa. Não sei dizer se a rua estava escura, ou clara. Ou quantas pessoas passaram por mim, no caminho. Estava pensando em Marcelo.


Marcelo e Fernanda nasceram do nosso ócio, criatividade e paixão pelas palavras.
Personagens de um livro inacabado, farão parte de contos aqui e ali, sempre que der vontade.

Maré cheia

Era ainda entardecer, mas o sol já havia se posto e a escuridão vinha com força. O céu cheio de nuvens pesadas já avisava que a chuva logo cairia. Ostentava, todo orgulhoso, uma Lua nova bonita. A maré estava tão cheia e agitada que o meu barquinho parecia ter sido engolido pelas ondas. Do contrário, ele ainda estava ali. Cheio de água, sem os remos e com uns buracos no casco. Era resistente, era preciso ser. Ele carregava o meu coração.
Batendo-quase-parando, ele já estava cansado do balanço contínuo da Maré da solidão repetindo-se sem parar. A correnteza, porém, era forte e puxava-o impiedosamente para o fundo, para mais longe da costa.
Desesperador isso de prosseguir sem o amor. Ainda era possível vê-lo no horizonte, acenando e sorrindo. Feliz com a partida, já era de se imaginar. Amor-Traidor! Confiei-lhe o meu coração e ele o enganou com sorrisos fingidos e palavras amargamente doces. Partimos, pois, nós dois - eu com o coração na mão. Lamentando os dias ensolarados que havíamos passado juntos.

Um dia hei de gritar: - Terra à vista!