Loucura poética

Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer.
Vinícius de Morais

Poetas são suicidas em potencial. Sem motivo nem explicação entendível, eles sentem e sofrem, no mínimo, três vezes mais do que todo o resto. Nós somos assim. Somos acometidos de uma loucura literária terrível e nunca, nem por um segundo, abandonamos as palavras.

"Escritores são uns desocupados. Tudo gente que não tem nada pra fazer na vida", me disseram uma vez. Não ousei discordar. Tanta coisa nessa vidinha mais ou menos de meu Deus e eu fui escolher logo o extremo. A poesia. Poeta é, na melhor das hipóteses, um traficante de sentimentos e emoções. Um fora da lei. Larga o lápis e vai viver!

E quem disse que poeta não vive?

Existe uma linha tênue entre a poesia e a loucura. Cuidado, meus amigos, quando a coisa começar a ficar psicodélica demais é sinal das primeiras pontadas de insanidade dando um alô.

Oração de Natal

Deus, lindo do meu coração, oi!
(Não estranhem o jeito de chamar Papai, é que é com muito carinho)

Já faz um tempo, eu sei, que não conversamos assim, me desculpe. Pela milésima vez, eu peço desculpas. Uma vergonha, eu sou. Mas não vim aqui para dizer lamentos. Quero agradecer. Obrigada. Por ter a certeza que o Senhor nunca desistiu de mim - com uma fé e irresponsabilidade tão pequena! - e nunca desistirá de vários que lerão esse texto. Obrigada pela minha vida, eu tentarei fazer ela valer o preço pago na cruz. Obrigada, Pai, pelo amor. O Teu, o da família, o dos amigos e daquele outro que eu nem sei nomear. Obrigada pelas pessoas. Elas são irritantes, orgulhosas, fofoqueiras, imbecis, mas são importantes. As minhas pessoas são importantes. Obrigada pela poesia, essa que me inspira e me sustenta em tantos dias ruins, ou bons. Obrigada por esse ano. Se fosse avaliar, ele seria o melhor e pior ano da minha vida. Os dois ao mesmo tempo. Mas quer saber? Foi bem melhor do que pior. É, foi melhor, mesmo. O pior se reduz ao miúdo, quando comparado. Obrigada por tudo. E mesmo que eu não tivesse nada disso para agradecer, eu agradeceria.

Por último, obrigada pelo Natal, Deus. Mesmo sabendo que Jesus não nasceu nesse dia, que é só uma data comemorativa e independente de alguns enxergarem hipocrisia... Obrigada pelo que ele significa para mim. Salvação. Obrigada por Ti.

Ah, e antes que eu me esqueça, um último pedido: Que a vida dê certo pra mim. Independente de como ela aconteça. Só quero que dê certo.

*Em nome de Jesus, amém* Acabei, Paizinho. Beijo aí pra cima.

Feliz Natal, seus lindos!

(Final)mente

Cansei de ficar à mercê da vontade tua, do querer do outro lado -  porque do lado de cá já transbordava sem que eu me desse conta. Cansei de brincar de aventureira, não sou destemida coisa nenhuma. Eu tenho é muito medo aprisionado, só que o escondo com muito esforço de todos. Cansei de fazerem o meu coração de bobo. Eles insistem, enganam, quebram as promessas, me jogam no chão e ainda pisam em cima.

Cansei. Arranquei tudo o que você havia plantado contra a minha vontade. Pela raiz. Estraçalhei tudo que era bonito. E o que era ruim, também. Só para não restar um punhado de nada. Nenhum vestígio da sua passagem por mim.

E como se nada tivesse acontecido, eu me levanto, sacudo a poeira da alma e ando em direção à esperança. E essa última me parece tão radiante ultimamente.

O tipo de homem para mim.

Ele não precisa ser alto, forte e musculoso. Até porque, de homem musculoso demais eu tenho horror. Parecem ogros enormes que só estão esperando uma oportunidade para te sufocar num abraço. E logo eu, tão fininha! Pode ser magrelo, alto ou baixo - eu abro mão de usar salto alto, sem problemas. Mas se tiver o abdômem definido eu não iria reclamar. Prometo.

Se morasse perto seria um facilitador de encontros. Quando batesse a saudade não teria que esperar muito. Mas pode morar longe, também, que com distância eu já me acostumei. Em outra cidade, ou outro estado. Eu economizo para viajar. Outro país está fora de cogitação, é exigir demais do meu pobre coração. Rimou, mas não era para. Dizem que quando a gente fala rimando é porque tem muito doce por dentro. Mentira, não dizem. Eu que acabei de dizer.

Não precisa ser médico, advogado, arquiteto, nem ganhar muito dinheiro. Artista independente, escritor ou produtor de cinema já seria lindo. Mas tem que ganhar bem para sustentar a prole, não esqueça disso. Não precisa ser nada, nem precisa ser tudo. Só precisa ser meu. E dessa parte eu faço questão. Única e exclusivamente. Meuzinho da Silva Xavier. Possessiva e ciumenta do jeito que sou, é a única exigência da lista. Sendo meu, eu tenho que ser sua. Só e simplesmente.

Eu não preciso de nada disso. Só preciso de você ao meu lado. Que me ligue nas madrugadas por motivo nenhum, ou só pela desculpa esfarrapada de estar com saudades - sendo que teríamos nos despedidos meia hora atrás. Que me traga flores em um dia especial, ou só me traga você. Isso basta.

Esse é o meu tipo de homem: Nenhum. Só o seu tipo.

Espera insuspeitada

O vestido branco de renda me cai perfeitamente no corpo, os cabelos estavam um pouco bagunçados, presos em um rabo de cavalo meio frouxo e a cara amassada denunciava que tinha acabado de acordar. Estou aqui, sentada no mesmo banco de sempre da praça, segurando as mesmas flores de nunca.

No horário de todos os dias você aparece; Bordado de um querer-ainda-insuspeitado, você se aproxima de mim - Bom diiia, olha as flores que eu trouxe pra você, amoooor - e passa - a música para - você não percebe, como também não havia notado a minha presença ali.

Veja: As minhas flores já estão quase murchas, coitadas. Você é tão desatento e anda sempre tão apressado, Moço. Eu te espero aqui. Aqui. Se você prestasse um pouco - só um tiquinho - mais de atenção... Se ao menos olhasse para o lado.

Vida cinematográfica

Não sei vocês, mas eu tenho achado a vida tragicamente engraçada, nesses últimos dias. Farei divagações sobre, mesmo sabendo que vocês não irão entender. Que se dane. Não é pra entender, nunca foi.

Sinto que vivo em um cinema, pulando de sessão em sessão. Ora comédia, ora tragédia, uma pequena pausa no romance, mas logo segue adiante, suspense, drama. Todos os gêneros imagináveis. É divertido, mas seria mais se eu tivesse o controle da situação - só que esse já fugiu das minhas mãos em um dos primeiros capítulos do filme.

É tão trágico que dá vontade de rir com tanta desgraça acontecendo. Tudo isso junto, ao mesmo tempo e sob uma mesma pessoa? Hilário. Sofredora mesmo é a protagonista que fica louca com a troca repentina de roteiros, tentando entender a trama, o que os outros personagens estão pensando e atuar como se soubesse o que está dizendo e fazendo. Uma farsa.

A bagunça está instalada no set de gravação. Ninguém mais sabe o que fazer, nem pra onde ir. Diretor fanfarrão! Se o meu papel fosse da Rainha de Copas, diria: "CORTEM-LHE A CABEÇA!". Mas nem para isso eu sirvo. Calo-me, pois. Não falo mais nada. Papel após papel, cenário após cenário, deixo passar. Espero o dia em que hei de recuperar a dignidade perdida e ser premiada com Oscar.

Epifanias aleatórias

Pior do que mentir quando perguntam se você está bem, é a pessoa não se importar se a resposta for não.

Eu penso que: Quando alguém gosta da gente, não precisa fingir o contrário.

Só porque Shakespeare disse que beijos não são contratos, não significa que seja verdade.  Beijos são contratos, sim senhores. São escritos à suspiros e olhares que vez-ou-outra se encontram. Frágeis. Facilmente quebráveis por palavras - ou a falta delas.

Será que, um dia, irei conseguir o que quero? Ou querer o que conseguir? Quero querer e quero conseguir, também.

A vida é um palhaço de cara pintada que fica dançando na sua frente, te fazendo rir e brincando com a sua cara. Cruelmente engraçado.

Escrever é o colete salva-vidas que faltava nesse mar de desgosto.

As beiradas vermelhas dos meus lábios latejam de nostalgia. O gosto na boca é amargo.

Existe uma linha tênue entre o desespero e a esperança.

Quando se está tão mal por dentro que não se consegue nem chorar, penso, ainda restam as palavras a serem cuspidas.

Não sei se sonhei ou se pensei realmente que, uma única vez na vida, você era verdadeiro no que dizia.

Falta tanto espaço

Eu só queria saber o que é isso que palpita-feito-louco dentro do meu peito.

É um vazio preenchido de saudade; Uma ausência cheia de medo; Uma mistura de ansiedade e covardia - tudo junto, formando uma confusão danada. Um sentimento em cima do outro, empilhados desordenadamente em uma montanha feia e bagunçada. Um esmagando o outro, outro empurrando um.

Chega pra lá qu'eu sempre ocupei o maior espaço aqui dentro, disse o-que-hoje-eu-já-nem-sei-mais-que-sentimento-é.

Os outros olharam feio para ele e só diminuíram ainda mais o seu lugar, chutando o coitado para o cantinho mais escuro. Esquecido no meio da sujeira.

Imortal

O que me parece é o seguinte: Nascemos predestinados – não à morte – mas à imortalidade. E esperamos o contrário, por acaso?
Após o amanhecer vem o anoitecer e um novo amanhecer seguido de anoitecer. Assim a vida acontece - amanhecendo e anoitecendo, não necessariamente nessa ordem.
Sabendo desse ciclo-sem-fim, já deveríamos estar preparados para a inevitável noite da nossa existência.
Mas, não, nascemos para a imortalidade. Ai de quem disser o contrário.


"Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Porque nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo 'clima’, certa 'preparação'. Certa 'grandeza'. Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo 'eterno') cotidiano." Caio Fernando Abreu

Quel life!

Não adianta, eu tenho plena convicção de. Não adianta chorar, gritar, espernear, soluçar. Tudo que você fizer não irá adiantar. Nada do que você fizer irá adiantar. A vida é fria, sem coração e será sempre cruel, não importa o que você cultive por dentro. Se amor ou ódio, não faz diferença. Como se fosse uma maldade-divertida, ela pinga ácido na ferida recente e escancarada. Dói. Arde. Agoniza.

E, só pra melhorar: Não há o que fazer, pois somos reféns do querer do destino.

Escrever vai além do que se lê

Quando o coração não aguenta a enchente de sentimentos, a chuva cai pelos olhos e, não bastando, transforma-se em palavras. Escrevo essas pequenas que são carregadas de emoção e pinceladas de poesia, enquanto elas dançam e rodopiam embaladas pelo som das minhas batidas aceleradas. Uma taquicardia para cada frase.

Pinta um orgulho-bobo-bonito quando um ou outro diz que elas são lindas. Eu acho elas lindas. Elas próprias se acham lindas, essas orgulhosas. E são. Lindas, tristes, saudosas, dolorosas, alegres, angustiantes, aflitas, desesperadas, feias. São feias de doer no osso. Ri-dí-cu-las. São tudo isso e o que mais quem lê quiser que elas sejam.

Palavras me entregam de bandeja a qualquer um, não há como negar. Disso eu não posso reclamar, pois escolhi assim. Só escrevo o que sinto, e da maneira mais boba possível. Elas cheiram a estrelas e tem sabor de morango mergulhado no leite condensado.

Em mim, escrever é muito mais do que só escrever. 
Escrever é mais eu, do que eu mesma.

Marcelo e Fernanda em: Uma história diferente.

A cafeteria Le Pettit Cafe tinha um quê americano. O cheiro inebriante de café pairava no ar; Nas mesas, as pessoas bebiam cappuccinos acompanhados de cupcakes de marshmallow e cookies de chocolate. Os sofás eram de cor nude e acolchoados, formando uma meia-lua em volta das mesas. No cantinho havia uma Jukebox tocando blues e jazz, estilos de música mais apreciados pelos freqüentadores do local.

Marcelo, um moço de sorriso iluminado e amante da literatura, é um desses freqüentadores. Vai à Le Pettit todos os dias, sempre no mesmo horário: 7:00hr. As idas se tornaram um ritual matutino. O pedido era sempre o mesmo: um cappuccino duplo com bastante espuma e muffins de brigadeiro. Sentava-se na mesa mais afastada, perto da imensa janela de vidro e tomava o seu café da manhã. Trinta minutos exatos. Talvez o destino cronometrasse tudo.  Levantava e ia trabalhar.

No mesmo instante, às 7:30hr, chegava Fernanda. O pedido sagrado de todos os dias era um Café Mocho e Cookies, para acompanhar. Ela tinha cabelos pretos-quase-azuis pouco acima do ombro e bochechas rosadas. Sentava-se – por mera coincidência, ou não – na mesma mesa afastada e perto da janela de vidro, tomava o seu café da manhã e ia à Universidade.

Os desencontros aconteciam desde que o Café foi aberto. Estranho é o fato de aquela mesa só ser usada por eles dois. Quem sabe um deixava um pouco de si para o outro sentir na manhã seguinte, ou minutos depois. Eles já se conheciam e nem sabiam disso.

Sábado tudo mudaria. Era o dia de folga de Marcelo. Ele foi à Cafeteria, fez o mesmo pedido de sempre, sentou-se e começou a ler um livro. Poucas páginas depois e ele não se lembrava sobre o que tinha lido. A leitura teria que esperar. Fechou o livro, colocou no sofá, pegou a chave de casa na mochila e começou a rabiscar a mesa de madeira. Desenhou um homem sentado no banco do parque, segurando um copo de café e tomando banho de chuva. Escreveu uma frase de Caio Fernando Abreu que dizia “Por que estamos tão perto e tão longe?” e assinou no canto. Foi embora dali e, no momento exato em que saía, Fernanda entrava. Segurou a porta para ela, que respondeu com um tímido: “Obrigada, moço.”.

Fila. Balcão. O pedido de sempre. Ao sentar-se na mesa, viu o desenho e ficou encantada. Quem seria o tal Marcelo da assinatura? Ela estava curiosíssima, afinal ele havia citado uma frase do seu escritor favorito. Tirou o prendedor de cabelo de metal dos cabelos e completou o desenho. Fez uma mulher sentada na outra ponta do banco, com um sorriso no canto da boca e segurando um guarda-chuva na direção do moço. Citou Caio na parte de cima do desenho: "Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra." e assinou.

Quando acabou, viu o livro esquecido ao seu lado. Folheou algumas páginas e decidiu levá-lo para casa, um dia encontraria o dono – e, inconscientemente, esperava que isso acontecesse logo. Olhou para o relógio e percebeu que havia perdido a noção do tempo. Precisava chegar à Universidade em quinze minutos, tinha que se apressar. Pegou o café, colocou o livro dentro da bolsa e saiu correndo.

Incontáveis passos depois, Marcelo percebeu que havia esquecido o livro lá e retornou para buscá-lo. Eles se cruzaram no caminho, dois estranhos andando pela mesma rua, indo em direções opostas. Fernanda se esbarrou sem querer em Marcelo, deixando derramar todo o café no meio da calçada.

- Ai, que desastrada eu sou. Me desculpa, moço. Derramei em você? É que eu estou com muita pressa, preciso chegar ao ponto de ônibus... – Ela começou a tagarelar nervosa.

- Tudo bem, não precisa se preocupar. – Interrompeu-a - Se quiser eu posso te pagar outro... Hm, Café Mocho?

- Ah, obrigada, mas eu não tenho tempo. Me distraí com um desenho na mesa e agora estou atrasada para a...

O ônibus já se aproximava na rua. Ela ainda arriscou gritar enquanto corria: – Tenho que ir, tchau. – E foi.

Marcelo continuou o seu caminho, surpreso que ela tivesse visto o seu desenho e, principalmente, se atrasado por causa dele. Entrou na Cafeteria, mas o seu livro não estava mais lá. Ao invés dele, havia outra coisa na mesa que chamou a sua atenção. Havia traços a mais no desenho. Agora, também sentada no banco, estava uma mulher segurando um guarda-chuva e sorrindo; Outra frase de Caio Fernando e a assinatura. Eis o nome da moça desastrada: Fernanda!

O dia dos dois foi pensativo. Nem ela conseguiu se concentrar nas aulas, nem ele em nada que tentasse fazer para aproveitar a folga. O domingo passou arrastado, parecia que o tempo queria irritá-los, os ponteiros preguiçosos do relógio quase-não-rodando.

Manhã de segunda-feira. De tão distraído que estava no dia anterior, Marcelo se esqueceu de ajustar o despertador, que só tocou muito atrasado. Levantou apressado, vestiu a primeira roupa que encontrou pela frente, pegou a mochila e saiu de casa, ainda sonolento. Entrou na Le Pettit, pediu o seu café, mas não se sentou – foi tomando no caminho. Mal olhou para os lados, nem percebeu que Fernanda estava lá, ao lado do desenho, esperando quem-quer-que-fosse-Marcelo aparecer para devolver o livro. Como ele não chegou, ela foi embora. Frustrada pela espera em vão.

O céu estava cheio de nuvens pesadas, com certeza choveria. E choveu. Choveu o dia inteiro, sem parar. No final da tarde, Fernanda pegou o ônibus e saltou no ponto perto da Cafeteria. Sua casa ainda estava há cinco quarteirões dali, mas ela resolveu ir debaixo da chuva, não se importava. Jogou o capuz fino do capote por cima da cabeça, como se adiantasse alguma coisa contra as gotas violentas que as nuvens arremessavam e começou a andar. No meio do caminho, um homem se aproximou dela, abriu o guarda-chuva e disse:

- Minha vez de te salvar da chuva, Fernanda.

Uma alma especial reconheceu de imediato a outra.

Muito e pouco tempo

Leva um tempo absurdo até você perceber quanto tempo perdeu em tudo isso que sempre foi nada e entender que só é preciso mais uma dose de tempo, mano velho, para o temporal passar.


E eu, bonitos, só preciso de um tempo milagroso em minha vida.
Só volto a escrever com o coração quando o relógio for ajustado.

What. the. hell.

Não queria sentir essa falta. (E quando digo falta, entenda como saudade, vontade, dor. O raio que quiser.) Sou a dona do "Oi, tudo bem? Tudo ótimo" mais fajuto que você já conheceu. Se eu me deixasse dominar pelo impulso - e olha que esse bendito já me prejudica bastante! - passaria um tempo interminável numa conversa boba qualquer, só com a desculpa de ouvir a voz morna que faz cócegas no meu ouvido.


Quatro linhas: O máximo que a dose de inspiração da madrugada conseguiu.

Não aceite o meu chá

Isso de "é preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada" causa em mim um conflito interior absurdo. É inevitável a ansiedade diante da tua súbita aproximação. Minha pele fica completamente ruborizada e a vermelhidão esquenta as maçãs do meu rosto, fazendo-me suspirar - como aquelas chaleiras cheias de água quente, soltando o vapor e apitando sem parar.

23 de setembro

O dia amanheceu todo manhoso. A claridade que conseguia passar entre as nuvens, entrava pela janela e me dizia para levantar. Era inevitável murmurar, virar para o outro lado da cama ou puxar o edredom, o despertador já se descabelava tocando. Que preguiça.

O céu ostentava um arco-íris belíssimo, no meio da imensidão azul. Cedo da manhã, que inesperado! O sol, aquele exibido, brilhou intensamente e me deixou com calor. Lindo, lindo. A primavera já estava toda-toda no seu primeiro dia.

Estação das cores, dos amores, das flores. É inexplicável a sensação que sinto de querer poetizar até um piscar de olhos, um sorriso bobo qualquer. Setembrites agudas são doenças bastante comuns, nessa época do ano. E, abrindo o meu coração, sempre achei setembro um mês cheio de mistérios primaveris.

Amor, esse fardo.

     "MERCÚCIO — Sois um apaixonado. Por empréstimo tomai as lestes asas de Cupido, que heis de pairar por sobre a mediania.
     ROMEU — Tão traspassado estou por suas setas que suas lestes asas não conseguem transportar-me para o alto: tão peado, que não posso deixar a dor obscura, sob o fardo do amor gemendo sempre.
     MERCÚCIO — Mas para estar sob ele, é necessário que carregueis o amor, peso excessivo para coisa tão terna.
     ROMEU — Coisa terna julgais que seja o amor? Não; muito dura: dura e brutal, e fere como espinho.
     MERCÚCIO — Se o amor convosco é duro, sede duro também com ele, revidando todas as pancadas que der." (Romeu e Julieta, Cena IV – Shakespeare)


Acabaram os mimimi's, voltei a escrever sobre o amor - o mesmo de sempre.

Último pedido

A sua presença é um mistério e eu não pretendo tê-la por muito tempo, para poder desvendar. É perigoso, eu já sei. Evito de todas as formas que os nossos olhares se encontrem, porque eles sabem das coisas que ninguém sabe. É um mergulho cruciante nas águas amendoadas dos teus olhos. Fundo, quase sem fim de tão profundo.

Como se não bastasse a dor penetrante que sinto, chega você e diz o que eu quero-mas-não-posso-ouvir e traz de volta a enchente devastadora que eu tanto temo. O medo penetra com força no meu interior e eu desejo desesperadamente sair dali.

Se a minha solidão te dói, chafurda bem no fundo do teu peito essa loucura sem pé nem cabeça e me deixa só.

De dentro pra fora

Se tudo isso for pouco pra você, me desculpe, não há nada que eu possa fazer.

O que tenho dentro de mim, entrego-te.
O arrependimento, a aflição e a angústia que penetraram em minh'alma; A tristeza e a dor pungente que assolam o meu peito; O gosto amargo das palavras-quase-bonitas que ficou na minha boca; A agonia violenta que se apossou dos meus pensamentos, desde então.

Leva só isso contigo e não ouse voltar.

Pesadelo de realidade

Aquele dia tinha um ar surreal. O sol brilhava sobre a minha cabeça, deixando todo o corpo quente. A rua estava vazia, sem um pé de gente nela. Para onde haviam ido todos, nesse meu sonho maluco? As poucas silhuetas que eu consegui ver estavam distorcidas. Senti certa gastura ao olhá-las.

Uma sensação de enjôo me invadiu, era um aviso. Saia daí, as coisas irão terminar mal - ela parecia querer dizer. Não dei importância. Era só mais um daqueles sonhos bizarros que eu tinha freqüentemente, o que poderia acontecer de tão ruim?

Perdi os pensamentos em um longo devaneio, ficando totalmente aérea do ambiente. Voltei assustada e... as coisas haviam ficado estranhas. Não lembro das palavras que sussurravam para mim, estava confusa. Corre enquanto é tempo - dizia aquela voz vinda do inconsciente que ninguém nunca parece ouvir, mas no fundo sabe que sempre devia ter obedecido.

Os limites haviam se perdido. Eu, na verdade, havia me perdido de mim. Ali, eu descobri: Não era sonho, era realidade. Tarde demais.

E terminou. Não mal, mas péssimo.

Poesia de dor e amor

Escrever é a arte de vomitar os sentimentos em formas de palavras; É esvaziar-se das emoções e carregar cada pequena letra delas; É se expor entre as linhas. Eis aqui alguém que exercita essa arte.

Há dias nos quais a poesia brota delicadamente do peito, formando palavras leves e sutis. Noutros, ela rasga tudo por dentro até conseguir sair. Doloroso. Ora doce, ora amarga. Poesia de dor, poesia de amor - qual é mesmo a diferença?

Se a dor da ausência me corrói, sou linda e saudosa. Se fantasio as alegrias, sou cheia de esperança e fé. Se o amor me cansou, sou profunda de se ler. Quer dizer que é assim? A minha dor é bonita? Carrega ela com você, então.

Se eu escrevo coisas lindas? Os outros que dirão.
Mas não adianta nada ser lindo.

De alguém que nunca amou

"É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Ela crê que sim."
(Amar, verbo intransitivo - Mário de Andrade)


O amor virou matéria escolar, para se ensinar? Ah, se assim fosse... Meu coração iria direto para a recuperação final. Não se ensina a amar, nem se aprende tampouco. Não se nasce sabendo – uma pena, eu lamento –, nem se morre sem senti-lo.

Amor se descobre. Quando menos se espera, ele desperta e inunda o ser por inteiro. Pedaço por pedaço, membro por membro, neurônio por neurônio; Cada gota de sangue é revestida e todos os batimentos cardíacos são impulsionados por ele. O bendito. O amor.

Já sabes, então, como acontece o sentimento. Acalma-te, pois esse dia há de chegar. Será em um verão. Sol, praia, água de côco, bronzeador e acarajé. Ou no inverno, porque não? Chuva, filmes, cobertor, meia e chocolate quente. A primavera virá independente da estação.

Marcelo e Fernanda em: O ponto de ônibus.

14 de março de 2009.

Era um dia de calor. Daqueles que gritavam por um sorvete de menta, na volta pra casa. Comprei o meu sorvete e fui para o ponto de ônibus. Fiquei ali parada por longos minutos. Foi quando conheci Marcelo.

Só havíamos nós, ali. Aliás, em toda a rua. Comecei a sentir uns sintomas de medo, porque o garoto não parava de olhar para mim. E para o meu sorvete também. Seus olhos se moviam cautelosamente do meu rosto, para o meu cabelo, passando pelo sorvete, até as minhas roupas. E assim ele continuou, pelo que, me pareceram, horas intermináveis. Fiquei constrangida e soltei um daqueles sorrisos sem graça, seguido de dois passos para longe.

Minha curiosidade falava mais alto, dessa vez. Comecei a observá-lo. Era bonito. Não bonito nos padrões que todos especificam. Bonito para mim. Atraía-me. Agora parecia inquieto, o moço. Catava alguma coisa no bolso da calça mas não conseguia achar.

Ele veio andando em minha direção, me olhando como se eu fosse sua única esperança. E falou:

“Oi, tem um cigarro?”

Por alguns segundos, temi o motivo da sua aproximação. Depois de ouvir o seu pedido, sorri e falei educadamente:

“Tenho não, moço, não fumo. Mas tenho Halls! Que é bem melhor!” – E estendi o pacote de Halls na sua direção.

Ele aceitou de imediato.

“Não acredito que você não fuma! Estranha, você. Você toma sorvete verde... e não fuma.” Ele disse com um tom de deboche.

Aquele garoto não sabia o que era sorvete de menta? Era a oitava maravilha do mundo!

Gargalhei alto. Enquanto repetia “Sor-ve-te Ver-de” pausadamente. Continuei tendo uma crise de riso.

Quando, enfim, consegui parar de rir, me apresentei.

“Fernanda, prazer. Qual é o seu nome?”

“Marcelo.” Ele respondeu num tom quase inaudível.

Depois de algum tempo de conversa, eu já tinha apresentado a oitava maravilha do mundo para ele. Sorvete de menta, Marcelo. Marcelo, Sorvete de menta. Compartilhei da minha paixão frenética pelos Smiths e.. Ah! Estudávamos na mesma faculdade! Como eu nunca tinha o visto por lá? Não importa o motivo. Agora, eu conhecia o Marcelo.

Não havia tempo para mais conversa, o ônibus tinha acabado de chegar. Porque logo hoje o ônibus decidiu não se atrasar?

Estampei um dos meus melhores sorrisos e me despedi. Despedida de mentira, eu teimava em pensar. E na minha mente, vinha uma cena de filme, em que o Moço vai atrás da Donzela. Entrei no ônibus e ele estava vazio, exceto pelo motorista e o cobrador. Sentei em uma das cadeiras vazias, lá na frente. E meus olhos brilharam, quando olhei para trás, e vi Marcelo subindo, ainda meio desnorteado.

Fiz sinal para que ele sentasse do meu lado, e disse:

“Guardei um lugar pra você, Marcelo. Fiquei imaginando quanto tempo você demoraria pra subir aqui..." – Surpreendeu-me ele ter vindo atrás de mim.

“Eu não demoraria, esse também é o meu ônibus. – ele retrucou - Então, garota-do-sorvete-verde, quer dizer que tens todos os CDs dos Smiths?

“Tenho. E ouço praticamente, todos os dias.” – Fiz questão de me gabar. E ainda continuei:

“Hmm, quero saber porque você acha que sorvete de menta não é bom. Você já provou, por acaso?” – Era inaceitável alguém que já tivesse provado, não gostar.

E ao longo do caminho, a conversa se desenrolou. Falamos sobre política – particularmente, era a mais informada, dos dois -, sobre gostos musicais – alguns parecidos, e outros, nem tanto assim -, sobre filmes – e nesse quesito, tenho direito de revolta. Quem, em sã consciência iria comparar Taxi Driver com O Poderoso Chefão? Aquele menino era maluco, definitivamente.

Qual era a minha vontade? Que o ônibus nunca chegasse no ponto. Era uma vontade estranha, aquela. Principalmente quando se trata de um pseudo-conhecido. Mas o Marcelo era daquele tipo que não se tem vontade de sair de perto. Ele vestia uma calça jeans surrada. Calçava um vans. E usava uma daquelas munhequeiras de couro, com fivelas. O meu tipo de garoto.

O ônibus parou. Deu um aperto no coração e eu falei:

“É aqui que eu desço. Não vai me dizer que aqui também é o seu ponto?” – utilizei a minha ironia, há tanto tempo guardada.

“É, não vou lhe dizer se você não quiser que eu diga.” Ele retrucou e fez uma careta, depois.

Maluco. Maluco de pedra.

Já era a hora. O motorista e o cobrador já deviam estar impacientes, a essa altura.

“Tchau, Marcelo.”

O beijei no rosto. Demorei, sem perceber. Queria que aquele instante não acabasse. Que ficássemos ali. Juntos. Nós dois. E fui me perdendo em devaneios, enquanto descia do ônibus. Andei mais duas quadras, até chegar em casa. Não sei dizer se a rua estava escura, ou clara. Ou quantas pessoas passaram por mim, no caminho. Estava pensando em Marcelo.


Marcelo e Fernanda nasceram do nosso ócio, criatividade e paixão pelas palavras.
Personagens de um livro inacabado, farão parte de contos aqui e ali, sempre que der vontade.

Maré cheia

Era ainda entardecer, mas o sol já havia se posto e a escuridão vinha com força. O céu cheio de nuvens pesadas já avisava que a chuva logo cairia. Ostentava, todo orgulhoso, uma Lua nova bonita. A maré estava tão cheia e agitada que o meu barquinho parecia ter sido engolido pelas ondas. Do contrário, ele ainda estava ali. Cheio de água, sem os remos e com uns buracos no casco. Era resistente, era preciso ser. Ele carregava o meu coração.
Batendo-quase-parando, ele já estava cansado do balanço contínuo da Maré da solidão repetindo-se sem parar. A correnteza, porém, era forte e puxava-o impiedosamente para o fundo, para mais longe da costa.
Desesperador isso de prosseguir sem o amor. Ainda era possível vê-lo no horizonte, acenando e sorrindo. Feliz com a partida, já era de se imaginar. Amor-Traidor! Confiei-lhe o meu coração e ele o enganou com sorrisos fingidos e palavras amargamente doces. Partimos, pois, nós dois - eu com o coração na mão. Lamentando os dias ensolarados que havíamos passado juntos.

Um dia hei de gritar: - Terra à vista!

Eu não entendo

Por que você não disse que viria?
Logo agora que eu tinha
Me curado das feridas
Que você abriu quando se foi
Por que chegou sem avisar?
Eu queria tempo pra me preparar
Com a roupa limpa, a casa em ordem
E um sorriso falso pra enganar

Eu não entendo a sua volta
Não entendo a sua indecisão
Num dia sou seu grande amor
No outro dia não.
(Eu Não Entendo - Nenhum de Nós)


Demorou. Levou tempo. Uma quantidade absurda dele até que a ferida se cicatrizasse. Os dias se tornaram monocromáticos. Em sua maior parte preto&branco, em outros cinza e mesmo quando a alegria era intensa ele só virava um azul-claro-apagado.
Orando para que o tempo fizesse o papel que dizem ser dele, continuei atropelando os dias. Nada de viver, era tentar sobreviver. Só na ilusão de que tudo não passara de um sonho dos mais lindos, mas que logo – mesmo que relutante – eu esqueceria.
Segui ignorando, abstraindo, esquecendo. Aos poucos. Um pedacinho de cada vez, até que só restasse a imagem embaçada com vultos que diziam coisas incompreensíveis. Bastava. A lembrança havia se tornado distante e de tão distante já não se podia distinguir. Era suficiente.
As cores haviam voltado, em sua maioria. Todas com força, em exceção do vermelho. Foi quando você voltou. Chocou-me. Lembrei com detalhes do filme que havia se tornado embaçado e que agora estava em cores ardentes. Uma pintura esbanjando vermelho-sangue. Desde o rubor nas bochechas até os corações que flutuavam por cima das duas cabeças. Nossas.
Mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar... Principalmente porque você estava ali, na minha frente e não foi sequer capaz de mandar uma carta ou fazer um telefonema avisando que viria.
Apareceu e levou ao chão o muro frágil que eu havia construído por todos aqueles dias, meses e estações. Procurei, no meu semblante perplexo, um sorriso – daqueles que sempre temos guardados para enganar sabe-lá-quem quando é preciso. Achei. Sorri desconcertada e desde então questiono a sua volta.


Feito magia.

É com lágrimas nos olhos e um nariz-vermelho-tomate que eu acordo nesse dia. Cheio de nuvens - que vez ou outra ameaçam a chover e deixam cair uma garoa fina para nos assustar, sem brilho e sem cor. O brilho estava nos teus olhos azul-celeste, que transbordavam da própria alegria. Celestial, como você. A cor estava dentro de ti e irradiava quando sorria.


Restou essa ferida não cicatrizada, que é regada pelas minhas lágrimas noturnas de saudade. As pérolas, os diamantes e as estrelas caindo dos meus olhos, repousando no travesseiro. Pérolas, diamantes e estrelas, Pequena. Quando o sentimento é bonito as lágrimas caem mágicas, assim. Espero pelo dia em que a ferida pare de arder e seja só bonita. Vire oca. É o que o Caio Fernando fala, Meu bem. Que lateje louca nos dias de chuva.

É com o mesmo coração em pedaços que termino o dia. Entardeço, e comigo a noite chega. Escura, com o céu vazio. Parecendo respeitar a minha dor. Agradeço-te, pois.


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Veja só, Raio de Sol, ontem eu ganhei uma irmã-do-coração-que-mora-longe.
E hoje a minha dor é maior, porque somei com a dela.
Cuida bem do Moço dela, viu? Eu cuidarei dela daqui de baixo.

Rosas-vermelhas, por favor.

"Amo como ama o amor.
Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar.
Que queres que te diga, além de que te amo,
se o que quero dizer-te é que te amo?"
(Fernando Pessoa)


Onde estão as cores? Elas se esconderam de mim, por acaso? Os dias estão cinza-nublado-sem-graça e a vida perdeu o seu charme. O que posso fazer, com essa pequena caixinha de lápis de cor que está do meu lado? São tão limitadas as opções e tão frágeis os lápis que estão dentro dela. Desenharei a terra, com uma pequena semente em cima. O sol, as nuvens e o regador. Cuidarei dela todos os dias, eu prometo. Chamarei ela de Amor. Amor, Amorzinho, Amore Mio, Mon Amour. Se eu planto amor, colho amor.

O amor já começou a brotar, vês? É aquela plantinha ali, no meio do desenho. Fragilzinha, coitada. De tão pequena, ninguém a enxerga. Os distraídos passam sem notá-la e pisam nela sem perceber. Não desenhei gente na pintura, por causa disso. Deixa ela crescer mais um tiquinho.

Que bela rosa a minha sementinha se tornou! E olhe essas pétalas... brancas? Quero rosas vermelhas! Venha já aqui, lápis-de-cor-vermelho e pinte as minhas rosas com cor de rubor, como o amor – ou eu chamarei a Rainha de Copas.

Agora sim, suas pétalas exalam o cheiro doce do sentimento mais bonito. Está perfeita. A minha rosa, eu guardei num daqueles potinhos de vidro, como n’A Bela e a Fera. Quando a última pétala cair – é sinal de que cansei de esperar – e o meu amor chegou.

Seria suficiente?

Espere. Pare de fugir só por um momento. Olhe nos meus olhos, com toda a tua sinceridade e me diga: O que você procura? Durante todo esse tempo você esteve correndo de um lado para o outro em busca de nada, ou coisa qualquer. Em vão foi a tua busca.

Ah, não... não se vá! Não vê que o que você precisa sempre esteve aqui? Tire essa venda dos olhos, levante o teu rosto e deixe que eu enxugue essas lágrimas. Não chore, meu bem. Estou aqui - como sempre estive - e estarei para sempre. Cuidarei de ti, não se preocupe. Quando precisar de mim é só chamar. Pode gritar, se preciso for. E se eu tiver saído, ligue. O número está anotado no guardanapo e guardado na sua carteira. Até me escreva uma carta, se necessário - como estou fazendo agora. Eu virei.

Preciso te confessar. Quero que saiba do meu amor por ti. Desculpe-me, querido, isso deve ter te assustado. Notícia dessa não se dá assim. Eu já tentei lutar contra ele, segurá-lo aqui dentro - preso, mas não adianta fingir que ele não existe. É forte, inevitável de sentir. Nunca te deixarei ir, Bonito. Pelo menos, não do meu coração. Estarás guardado bem no fundo, ao lado das lembranças tuas.

Lá vai outra de minhas confissões desajeitadas, posso? Então moço, temo que o meu amor - ainda que sendo sem medida - seja pouco. Que não seja suficiente para ti.
Por isso, quem vai agora, sou eu. Estou envergonhada, meu olhar lacrimeja e as minhas mãos já estão suando de nervosismo.

Só me impeça se o que sente por mim for sem medida,fugir de explicações e não tiver cura. Do contrário, não venha atrás de mim.


Deixo um beijo dos mais doces e o meu adeus, moço.
Te levo dentro de mim.

Pouco aparente, mas necessário

"Não posso exprimi-lo, mas de certo tu tens, como toda a gente, uma vaga ideia de que há, de que deve haver fora de nós uma vida que ainda é nossa. (...) Se tudo perecesse, mas ele ficasse, eu continuaria a existir. E, se tudo permanecesse e ele fosse aniquilado, o mundo inteiro se tornaria para mim uma coisa totalmente estranha. Eu não seria mais parte desse mundo. (...)
Meu amor por Heathcliff assemelha-se aos rochedos imotos que jazem por baixo do solo: fonte de alegria pouco aparente mas necessária."
(Capítulo IX), O Morro dos Ventos Uivantes.


Tu sabes, que eu sei. Sabes dos amores que eu não vivo, que não me deixam viver ou não querem viver comigo. Sabes
dos gostares que não se concretizam, apesar das paixões-platônicas-corriqueiras que eu deixo espalhadas por aí. E sabes, acima de todos esses, dos
meus sentimentos por ti. És um divisor em meio à bagunça em que estou.

Antes de ti... era vazia. Só superficial e amedrontada, não fazia lá muito sentido.
Quando te conheci... foi como se as estrelas finalmente brilhassem, diante da escuridão e eu pude enxergar o quanto elas eram lindas e radiantes. A luz me permitiu perceber o que estava fora do lugar, o que faltava e tudo de errado que havia. O vazio, a superficialidade e o medo esvaíram-se. Tudo é bonito, agora. Cada manhã é uma nova esperança que renasce, uma coisa linda de sentir.

És a nova razão. Se tudo acabar e eu ainda tiver a ti, estarei satisfeita. Plenamente feliz. Disse no princípio, fostes o divisor. Depois que chegastes, tomou conta do meu coração e já não sei viver sem te ter por perto. Tu e as tuas palavras doces que tanto me encantam.

São as pequeníssimas coisas que se tornaram essenciais. Coisas bobas, mas necessárias. Daquelas que ninguém da muita importância, sabe? Eu valorizo nas alturas e me apego. Aos afetos, às palavras, aos carinhos, a você.

Primavera se foi

E com ela, meu amor.

Era primavera, as árvores estavam bonitas e cheias de flores de todas as cores. A mais bonita de todas era você, pequena. Sempre radiante, independente do clima ao redor. Chuva ou sol, estavas sempre sorrindo. E, ao meu ver, tinhas um raio de sol particular, que iluminava a tua vida e os teus cabelos. Amare-loiro. O céu estava refletido nos teus olhos. Claros, azuis, celestes. E das tuas bochechas brotavam um rubor rosado, delicado. Tuas pétalas frágeis.

E a primavera nunca havia sido tão linda, ao teu lado. E depois viria o verão, o outono, o inverno e novamente a primavera. Mas, não. Antes que a primavera acabasse, você não estava mais aqui. Tinha ido. Deixou-me, deixou-nos, deixou-os. A dor da tua partida se fincou no meu peito. E vem ardendo, corroendo, dilacerando-me aos poucos.

Guardo as estações que passei junto a ti com carinho, pois foram as mais doces que vivi. Carrego esse vazio por dentro. Sinto falta do teu sorriso espontâneo. O teu olhar sincero me faz falta e as tuas gargalhadas deliciosas de ouvir eu gravei na memória.

Postagem coletiva da semana. :)

Amnésia

Quem eu quis
e não me quis
Quem me quis
e eu não quis
Quem eu quis
e também me quis.

Esqueceram-me.
Amor, por favor, não se esqueça de mim.

Luz do luar

Lua que clareia a noite escura

Traz pra mim essa tua luz

E me ensina como seduz

Um pobre coração, cheio de amargura


Luz do luar, traz cá pra baixo

esse teu brilho encantador

e empresta-me um pouco

para eu também brilhar?


Quero um último desejo

se você puder me conceder

Peça às estrelas

para aqui descer?


Diga que elas tragam o seu cheiro

Para a todos embriagar

Com cheiro de estrelas

é que eu quero amar.

Susto

Assustei-me. Nao percebi a dimensao que os teus cavalheirismos haviam conquistado. É cedo para qualquer concretizaçao. Deixa assim indefinido, como está. Que há de ser o que quiser. Porque a pressa só atropela o que virá a acontecer.
Sei que no lugar da minha garganta, agora existe um nó. Ou uma junçao de vários deles, amarrados entre si. Um, dois, tres, quatro nós. Eu queria gritar e expulsar de mim o que estava entalado, mas nao conseguia.
Continuava assustada. E agora, só piorava. Os nós iam desmanchando-se pouco a pouco e me devolvendo a fala e a respiraçao. Compreendi o que antes estava invertido - para mim.
Entardeci. Procurei em meio à noite e nao achei. Onde está o meu vagalume?

Sonha, coraçao. Sonha!

Estava tudo bagunçado aqui dentro. E ainda está, para dizer a verdade. Mas, naquela noite, a bagunça era total. Os pensamentos misturavam-se com os devaneios que por sua vez, confundiam-se com os sonhos e era impossível distinguir um do outro e outro do um.
E foi no meio dessa confusão toda, que você apareceu. Sempre muito bonita, como você sempre foi. Carregando aquele sorriso morno, um olhar que radiava alegria e uma voz que transbordava delicadeza. Teus cabelos loiros estavam presos em um rabo-de-cavalo, no alto da cabeça. A tua maquiagem estava impecável, assim como as suas roupas. E faço questão de descrever todos os detalhes, por mais insignificantes que sejam. Quando trata-se de você, pequena... é essencial.
E, quando te vi, senti uma vontade imensa de te abraçar e beijar mais uma vez. Como num impulso. No meu sonho, nada mudara. Ainda era a mesma coisa de sempre, com você ali. E eu o fiz. Corri em sua direçao, gritei seu nome e dei o mais forte dos abraços e o beijo mais singelo.

O que eu não daria para que fosse verdade?

Meu teclado nao está acentuando direito, entao desconsiderem a falta deles.
Obrigada, queridos.

A Diamond Ring

O meu mais novo brilho, compartilhado com vocês.

O Diamond Ring vai brilhar glamour, quando o assunto for moda. E é!
Quero ver todos vocês por lá, ein.

Beijos no coração.

Como se fosse novela

Era uma noite como todas as outras. Já era tarde, a cidade estava deserta e o céu azul-escuro-acinzentado ameaçava chover.
A linda jovem e sua fiel escudeira, voltariam andando sozinhas - sem nenhuma companhia ou proteção - pelas ruas perigosas e frias. Quando, de muita boa vontade, o seu amigo camarada decidiu acompanhá-las.
Em meio as conversas e risadas, elas percebem que estavam sendo seguidas por um moço misterioso e belo. Ele se junta a eles, durante o caminho. E eis que a bela jovem conhece o homem mais cavalheiro de sua vida.
Enquanto o nobre cavalheiro ia deixando pelo caminho as suas gentilezas, a bela jovem ia atrás, recolhendo todas e guardando no coração.

Desconfio

"Agora sei não mais reclama
Pois dores são incapazes
E pobres desses rapazes
Que tentam lhe fazer feliz (...)"
Linda Rosa - Maria Gadu

Dizem que ando meio desconfiada. Cheia de descrença e falta de fé. Falam que pareço que fui perdendo a emoção de sentir, aos poucos. Agora tudo perdeu a graça. Perdeu-se aquele brilho intenso que eu carregava no ohar. A minha suavidade ao falar do amor. Não poetizo mais, não sonho mais. Quase não acredito mais. Perguntam-me para onde foi a doçura do meu abraço. E eu digo que eles estão fazendo birra, lá no cantinho do meu quarto. Andam abatidos, sem querer sair de lá.
E toda essa desconfiança, de onde vem? É que cansei de fantasiar, sabe? Comecei a duvidar desses amores baratos que estão disponíveis por aí. Encontramos facilmente um a cada esquina. Jogados numa mesa de bar, espalhados aos montes pelo bairro. São todos baratos. Decidi que não irei perder tempo com eles. Simplesmente não mais. Juram que é verdadeiro e de qualidade, mas estraga logo no primeiro mês de uso. Ou às vezes, nem funcionam.
E desses amores, eu não quero.Eis a razão de toda a minha desconfiança. Resolvi economizar. Sabe, ir juntando toda a fé, a emoção, a graça, o brilho no olhar, a suavidade, as poesias, os sonhos, a doçura e os abraços. Pa-ci-en-te-men-te. Guardando com carinho, para deixá-los transbordar na hora certa. Aí você vai ver! Vou ter um amor dos bons. Do melhor.


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Inspirado em Desconfio de amores, de F. Palma.

Inevitável

"I've been watching your world from afar
I've been trying to be where you are
And I've been secretly falling apart."
Strange and Beautiful - Aqualung

Espio-te de longe. Com a timidez que me assola transbordando, não me atrevo a aproximar-me de ti. Pelos espaços entre as árvores e através das cortinas, eu discretamente te observo.
Assim faço, por já ter se tornado impulsivo em mim. Ainda parece ser tão insuspeitado para ti, não é? E eu creio que seja, de fato. Continuo me confundido, então. Sem razão.
Bonito, tu costumas ser tão amável e doce comigo. Sempre lindo. Espero ansiosa pelo nosso encontro ao acaso, para abraçar-te. Todo o meu medo se esvai quando estou contigo. Envolta dos teus braços. Transbordo-te em sorrisos. Jogo-os ao vento. Quem passa perto, pega um para si e me sorri de volta. Enxerga-te ali.
Quando te vi, foi inevitável não te querer por perto. Todos os detalhes me levam a ti. Tua direção. Meu lugar. Vês? É a sina tua. Sina minha. Que logo irei chamá-la de nossa.