Do jeito que acontece

A praça estava relativamente vazia, em comparação ao dia. Era a tarde do dia vinte e cinco de dezembro. Logo, esperava-se uma super lotação ali. A fila dentro da sorveteria nem chegava perto das enormes, que já haviam se tornado costumeiras. Nem se atreviam a sair pelas portas, na realidade. E, rápido como previ, já estava com o meu sorvete de Chocolate Branco nas mãos. Literalmente. Porque o sol, não teve nem pena do coitado. Foi derretendo-o, me obrigando a sair rodeando o sorvete com a colherzinha, diversas vezes seguidas. O formato do sorvete ficou mais parecendo uma concha marinha, eu percebi. E soltei risadinhas, em seguida.

Fiquei ali, a me deliciar com o sorvete e olhar em volta. Sentados no banco da frente, haviam dois casais de jovens. Dois homens, com duas mulheres. Riam alegremente, enquanto conversavam entre si. Logo depois, se levantaram e saíram, de mãos dadas. Bonito, bonito. No prédio da frente, no último andar, uma senhora apareceu na janela, enquanto sacudia as almofadas empoeiradas. Deixou-as ali, para observar o movimento na praça, também.

Hippies iam e vinham, carregando os seus produtos artesanais, e grandes mochilas nas costas. Conversavam distraídos, entre si. Eles iam, e uma garota chegava. Chegava de mansinho, com uma câmera fotográfica na mão, como quem não quer nada. Usava um jeans surrado com uma regata branca, um wayfarer branco no rosto, e havaianas nos pés. Se agachou nos degraus da pracinha, e começou a fotografar. Depois subiu, mirou as árvores, e fotografou novamente. Havia um cafezinho, na parte de cima da praça, onde um senhor esperava o seu pedido, encostado numa pose de quem sabia estar sendo fotografado.

A menina saiu, analisando as fotos recém-tiradas na sua câmera. Chegou, na mesma hora, uma família. Admirados, observavam a pequena menina montada em sua bicicleta, dar voltas na praça. E falavam empolgados, que ela acabara de perder o medo e ganhar a autoconfiança. Se distraíram, enquanto a menininha ia rumo à calçada. O pai correu e agarrou a bicicleta, antes que caísse, no outro lado da rua.

É desse jeitinho que acontece com a gente, eu refleti. É desse jeitinho que acontece, com o amor.

8 comentários:

Felipe Lucena disse...

E desse jeitinho. Tão simples e tão lindo.

gabriela m. disse...

pequenas coisas que mudam um dia sem que a gente perceba.

Pâmela Marques. disse...

É por isso que vejo poesia em tudo, flor. Só sei falar de amor.

Luciana disse...

Tão simples... realmente é assim com o amor. Acontece sem esperar, como se fosse mais um detalhe do cotidiano que de repente é alterado.

Bonito, bonito.

Beijo!

Marcel Hartmann disse...

De vez em quando, ao dar uma volta pra arejar a cabeça, eu levo minha câmera e tiro fotos de alguma coisa que me chame a atenção, desde uma velha com um cachorro a uma poça de água num parquinho. Às vezes saem coisas boas, às vezes não. Quando eu gosto, fico bem feliz. Tu deveria fazer isso também, já que disse que quer seguir a carreira de fotografia.

Mariana Andrade. disse...

tem que ser assim, simples, pra poder ser puro, verdadeiro, sem mais nada se metendo no meio.

aah, e teus comentários são demais aehauehaeuh "uau, ein" aehauehauh

:*

Amanda • disse...

Gracioso, delicioso.

ALF disse...

É desse jeitinho cálido, suave, quase imperceptível.
É assim que acontece, com calma, com doçura e ternura.

O amor não grita, o amor é um sentimento silencioso, porque não precisa reclamar sua presença. Ele está onde sempre deve estar.

Dentro de nós.
;)

Lindo texto querida.
Gostei daqui.

Beijos
Feliz 2010.